Meu pé na cozinha: quem faz o trabalho grosso?

Acho que não é novidade pra ninguém que muitos dos países nesse mundo se utilizaram de mão de obra negra pra construírem suas riquezas, seus alicerces.

Também não é novidade encontrarmos pretos e pretas nos trabalhos dos mais variados, trabalhos esses na maioria das vezes de grande esforço ou subempregos. Mas o que há de surpresa no meu texto, meu caro? A novidade é que eu ontem percebi alguma mudança. Ontem eu vi muita coisa que permanece, mas vi também muita coisa diferente.

Ontem eu trabalhei numa recepção, num evento muito lindo em Olinda, para professores da rede municipal. Cheguei e fui direto procurar a dona da recepção – que me tratou muito bem e me mandou direto pra cozinha. E foi lá que eu me vi, vi minha vó e minha mãe! Era uma preta quem cozinhava perto de um fogão gigante e uma panela sem fim, enquanto uma outra cortava cebolas e elogiava meu cabelo.

Durante a recepção, com os seguranças que são meus amigos (aliás, um beijo especial pra Hugo Isidoro) ia olhando cada professor e cada expressão: muitas mulheres pretas, diretoras, coordenadoras, professoras que me sorriam com uma simpatia sem fim. Apesar de estar trabalhando, me divertir e fiquei exponencialmente feliz pois a diferença das cenas me agradava.

Pensei durante a noite toda sobre os dois lados da mesma moeda: o trabalho grosso quem faz somos nós! Os dois dão dignidade, os dois requerem grandes esforços, os dois foram e são muito bem feitos. Nós construímos desde a sala até a cozinha, e aqui eu esvazio essa expressão de “pé na cozinha” porque a considero que saindo de mim, nada tem de racista, muito pelo contrário.

Tenho muito orgulho de ter nos visto ali, mulheres pretas: da cozinha até a sala de aula

_______________________________________________________________________

Uma homenagem a D. Carmelita Paula da Cruz.

Anúncios

Marcha das Vadias – E eu com isso?

Macha das Vadias – Recife

Esse fim de semana aconteceu a Marcha das Vadias em 13 capitais. Recife levou pras ruas mais de 2.000 vadias numa celebração triste, como disse Késia. Eu fiquei orgulhosa de todas as mulheres e especial de duas delas: uma foi Nancy, que marchou do nosso lado e disse palavras incríveis sobre a luta na Associação de Profissionais do Sexo. Nancy é uma preta forte, mulher incrível e de fibra, que organiza também a Parada da Diversidade em Recife. A outra eu peço perdão porque não vou lembrar como se chama, mas falou em nome das mulheres negras, dos coletivos LGBT’s e dos estudantes. Ela sensibilizou e mostrou que a Marcha, que o feminismo precisa estar atento as demandas dessas mulheres e homens – ela me representou.

Percebi com elas que precisamos ocupar os nossos espaços, precisamos falar, escrever cartazes com nossas demandas, debater sobre liberdade e empoderamento sob nossa ótica, sempre incluindo as que são nossas companheiras de luta. Falar que o feminismo precisa ser interseccional e atender as demandas da mulher negra, mulher trans* é bom, mas a ação precisa tomar o lugar da fala. A gente precisa aparecer!

Vi muitas de nós presentes, vi poucos cartazes que fizessem referência a nós, mas senti que estávamos ali também. Juntas pautando a nossa luta, nossos direitos e nossa liberdade. Porque, afinal, a liberdade virá para todas.

A escravidão: 3 séculos de ação

Na semana da abolição, temos (eu e alguns blogueiros) tentado resgatar o que aconteceu naquele Brasil de oitocentos, muito além do fato de Isabel ter assinado a lei de duas linhas.

Pensando que comemoramos e relembramos os 125 anos de abolição, esquecemos de fazer uma conta bem básica, vamos a ela: O Brasil foi descoberto em 1500, em 1530 chegaram os primeiros africanos – o mais antigo registro fala de uma remessa de 17 “peças” para o então capitão-mor Pedro Góis pra sua capitania de São Tomé (atuais Espírito Santo e Rio de Janeiro). Levando em consideração a tinta no papel de Isabel em 1888, a escravidão tupiniquim durou teoricamente 358 anos!

Se a gente pensar que a escravidão estadunidense começou em 1619 e terminou (tudo isso teoricamente, tá) em 1863, temos aí 244 anos – 114 anos a menos do que no Brasil. Essa matemática e analogia toda pra dizer que fica parecendo que a gente quer esconder a poeira pra debaixo do tapete quando fala ou comete atos racistas justificando que não há ligação com o passado ou ainda quando afirmamos que as consequências e sequelas desse sistema foram superadas.

É fácil entender: 3 séculos são trezentos anos! E não foram  trezentos anos de tentativa de reparação, não foram  trezentos anos de tentativa de mudança de mentalidade. Foram  trezentos anos também de escravidão mental, de discursos amenos e mentirosos. Só em 2004 um presidente brasileiro admitiu que o país era racista. Só agora entendemos todos que não vivemos uma democracia racial e que nossas oportunidades não são iguais.

Foram 3 séculos de ação nefasta para um povo que se quer foi consultado quando a política era a do café com leite, quando a mão-de-obra barata veio pelo atlântico novamente (mas dessa vez japoneses, italianos, alemãs…). Foram 358 anos de violência, silêncio e opressão legalizados.

125 é menor que 358 e matemática a gente não discute, não é?

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.

Dias de Negro

Inspirada pela Blogagem Coletiva Luiza Mahin inaugurei mais uma página pra tomar conta. Mas melhor do que ter mais um lugar pra alimentar é poder fazê-lo num dia simbólico, num dia de resistência.

E falando no decorrer dos dias, gostaria de lembrá-los (ou mesmo fazê-los descobrir, assim como eu) os momentos que precederam a tão falada abolição. Como bem lembrou o blogueiro Thomas Conti, as agitações, revoluções e revoltas já tomavam conta do Brasil de oitocentos e diversos ativistas favoráveis ao abolicionismo eram grandes conhecidos da época – nomes como José do Patrocínio, Luis da Gama e Joaquim Nabuco. 

Ao contrário do que se pensa ou se ouve nas aulas de história, a resistência/ insurgência negra foi a grande mola propulsora da abolição. Revoltas como as dos Malês, e as fugas em massa dos escravizados deixaram o império abalado e o sistema escravista tremeu. Apesar de sabermos que a grande parte dos negros que fugiram fizeram o caminho da casa grande para os quilombos distantes (no sertão, portos ou recôncavos dos estados), houve também uma “fuga para fora” (Silva, Eduardo, 1989)*, que foi a incursão do negro no cotidiano das cidades, aqui cito especificamente na cidade do Recife.

A sociedade escravista sempre foi baseada na mão de obra do negro e essa dinâmica não era diferente na vida urbana: os negros faziam tarefas desde transportar água e lenha até vender alimentos e outros objetos, esses ficaram conhecidos como negros de ganho,  que tinham inclusive uma liberdade parcial e que apesar de estarem sujeitados emocional e financeiramente ao seus senhores, tinham alguma autonomia sobre os “negócios”, a sua moradia, vestimenta e etc.

O que acontecia era que uma grande parte desses negros que ganhavam a autorização de seus senhores para viverem “sobre si” e habitarem os mocambos recifenses e que, aproveitando a frouxidão da vigilância de feitores e mesmo da polícia – que ainda não tinha esse nome -, inúmeros deles acabavam se escondendo e fugindo das vistas do seu antigo dono. É óbvio que isso levava os negros a caírem na clandestinidade e apesar da aparente liberdade, um outro mecanismo de controle apareceu para aterrorizar: a polícia.

Segundo Welligton Barbosa, no artigo Entre Sobrados e Mocambos: Fuga de Escravos e Ação da Polícia no Recife Oitocentista o que houve foi uma “Feitorização do Estado”, no que ele diz:

(…) Não devemos imaginar que os centros urbanos eram lugares paradisíacos, onde escorriam leite e mel, sem nenhum tipo de vigilância e controle. A cidade que escondia ensejava aos poucos a cidade que desconfiava, que transformava todos os negros em suspeito. A ausência do feitor era compensada por outros aparatos de vigilância e repressão: a feitorização estatal.

Portanto, é muito, muito importante admitir sem nenhuma pretensão que a abolição foi construída no dia-a-dia. Que os oitocentos foram anos de lutas, fugas, estratégias e resistência verdadeira, não só nos quilombos isolados, não só na fuga para os portos e nem só no esconderijo nos mocambos e sobrados das cidades. Foi resistência e fuga na vida, foi sobrevivência e liberdade das amarras do ideológico colonial, mesquinho e tolhedor. Foi e é, porque a luta nunca acabou e os dias continuam sendo de resistência nossa.

*Referência ao livro Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo, 1989 de Eduardo Silva e João José Reis.

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.