Ele bate nela – A naturalização da violência

violência_mulher negra

Me lembro da primeira vez que fui a uma DEAM [delegacia da mulher] testemunhar em favor de uma amiga feminista negra que havia sofrido violências do seu ex-marido.

Durante os minutos mais longos da minha vida, enquanto aguardávamos a chegada da delegada, um dos policiais fazia o diagnóstico do fim de semana: das 20 ligações recebidas, somente 10 chegaram a ser detidos, dos 10 detidos, 6 foram liberados e dos 4 que ficaram detidos, somente 2 eram flagrantes e foram encaminhados a detenção da cidade.

Esse número é o retrato de como a violência contra a mulher é banalizada, encontrando pelo caminho várias barreiras legais e burocráticas e por isso mesmo tem se transformado na maior causa de morte de mulheres. Segundo o relatório do Ipea Tolerância Social a Violência Contra as mulheres, 82% dos entrevistados concordam com a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O machismo, o sexismo e a misoginia são os vetores que combinados a doses cavalares de desinformação, falta de empatia e brutalidade levam os homens a agredirem e matarem as mulheres. Sim, morremos simbolicamente todos os dias quando somos assediadas nas ruas, quando sofremos violência psicológica dentro das nossas próprias casas, mas morremos e – exponencialmente morremos de fato – nos casos de feminicídio cinicamente disfarçados de crime passional, espalhados por todo o país, todos os dias.

Há quem diga que o assassinato dos 4 filhos e suicídio de Marco Aurélio Almeida Santos, que colidiu seu carro contra uma carreta na BR-070, em Cocalzinho de Goiás, nada tem a ver com seu relacionamento com Samara, sua ex-mulher. Em sua carta, deixada nas mãos dela, ele afirma: “hoje será o último dia que você verá seus filhos e seu marido, pode ficar com a casa e voltar a sua vida, mas com meus filhos você não viverá essa pouca vergonha”. Há também que afirme que se ele estava em depressão, “era melhor ter matado a mulher e deixado os filhos”

Fica bastante clara a tolerância social à violência e a desvalorização da vida da mulher, onde nossa existência é mais que descartável, é inconveniente! E isso está tão naturalizado que a gente pode ouvir essas coisas sem nenhum pudor, sem ninguém exitar em falar: “Ah, mas era mulher”.

Naquele dia, minha amiga precisou alternar entre engolir o choro e chorar várias vezes enquanto nos contava sobre o que havia ocorrido na sua casa. Nem imagino o quanto ela sofreu tendo que fazer o relato mais algumas vezes para a delegada e para os outros agentes da DEAM. E assim, o ciclo da violência se repete várias e várias vezes e a cada momento que você tem que explicar porque ser chamada de “linda” no meio da rua não é elogio, ou contar aquele caso do cara que te encoxou no ônibus. Ou ainda repetir inúmeras vezes que a culpa do estupro no Caso New Hit não é das vítimas.

O que há de mais chocante nos casos de violência contra mulher são as contradições – que claro, são discursos e imagens contraditórias produzidas pelo próprio patriarcado. No Mapa da Violência de 2010, 78% dos entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas, ao passo que 65% concordam que a mulher agredida que continua com o marido gosta de apanhar. Queria de verdade entender essa lógica, que criminaliza a violência, mas ainda assim culpa a mulher e a transforma em seu próprio algoz. #TádifícilBrasil

Isso me faz lembrar que geralmente essas mulheres – as mais criminalizadas e ditas culpadas pela violência – tem características específicas, como as da minha amiga feminista negra. Mães solteiras, pobres e claro, pretas! No texto das Blogueiras FeministasA violência contra as mulheres negras”, Priscilla Caroline afirma:

As mulheres negras são as maiores vítimas da violência doméstica. Segundo os dados apresentados no Mapa da Violência, em 2010, morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de homicídio, diferença que vem se mantendo ao longo dos anos.

(…) 92,2% dos casos de agressão física das mulheres negras e em 89,3% dos casos das mulheres brancas, a violência aconteceu na própria residência, partindo do cônjuge, ex-cônjuge, parente ou conhecido. Ou seja, a violência no Brasil possui um importante viés de raça, estando a incidência de violência racista profundamente relacionada à violência sexista.

Posso apostar que aquelas estatísticas que mencionei logo no início do texto, relatada pelo policial da DEAM, são 100% de mulheres negras, entendendo inclusive que a localização da delegacia denuncia isso. Não tenho dúvidas que somos nós a grande ponta e todo o iceberg de vítimas nos casos de violência contra a mulher.

Isso porque, além de tudo, o fato de sermos mulher negra se traduz, significativamente, no exercício duplo da dominação masculina[1] onde agem em conjunto e embrincados os fatores gênero e raça.

Apesar da Lei Maria da Penha, que versa sobre a criminalização dos casos das várias violências contra as mulheres e a mais recente conquista, a inclusão do Feminicídio no código penal brasileiro, a gente sabe que zilhões de marcadores impedem que uma denúncia se concretize: desde as barreiras burocráticas, passando pela má vontade e falta de treinamento dos atores envolvidos no processo (policiais, agentes, delegados) até os medos, inseguranças e instabilidades na vida das mulheres negras.

Depois daquela denúncia e do meu depoimento no caso da minha amiga, fiquei pensando quantas mulheres não tem se quer a possibilidade de chegar na delegacia – seja por dinheiro de transporte, por medo ou por ameça do agressor. Refleti sobre quantas daquelas outras mulheres que estavam ali tinham “avançado” em seus casos, chegando até a medida protetiva que, dependendo da ação do agressor e do número de denúncias, demora meses ou até anos.

E tenho certeza que só o apoio de umas às outras, nossa luta e o empoderamento fará com que a violência contra a mulher deixe de ser tolerada e naturalizada.

 

REFERÊNCIAS:

[1] Mulheres negras vítimas de violência doméstica conjugal. Mirian Lúcia dos Santos. PUC São Paulo, 2011.

Mapa da Violência. A anatomia dos homicídios no Brasil. Julio Jacobo Waiselfisz, 2010.

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Namorar não é isso

Quando eu comecei a me relacionar afetivamente [com meninos] eu devia ter mais ou menos 15 anos. Essa época em que a gente descobre que o amor da sua vida pode ser também o amor da vida de outra pessoa, ou mesmo que esse amor pode não ser correspondido e ainda assim continua sendo amor.

Bom, com 15 anos você ainda não se dá conta dos preconceitos nem dos fatos sociais minando decisões, relações individuais, e só depois [muito depois] você percebe os padrões se repetindo e aparecendo sempre como um anúncio em pop-up.

Na minha primeira paixão, o moço que era 3 anos mais velho que eu, fez questão que nem eu nem minhas amigas soubessem que ele tinha uma namorada. Sabendo ele que estava eu apaixonada, no segundo encontro ele teve a “necessidade” de garantir território e tentar uma relação sexual. Não rolou, eu já era mais safa do que imaginávamos [sim, eu não tinha me dado conta disso até outro dia] e logo meu “amor” esfriou. Ele, que era um moço branco, insistiu nisso algumas outras vezes, comigo sempre saindo à francesa, escapando da violência e pensando “Namorar é isso”.

Com o segundo rapaz, uma relação mais sólida, digamos assim. Apesar de entender que éramos infinitamente diferente nos objetivos [eu com 20 e ele 25], tínhamos um acordo bastante flexível: Ele tinha uma outra namorada com quem as relações sexuais eram permitidas, diferente de mim. Não sabia mesmo o que isso significava, nem quais eram as implicações noutras relações mais tarde, mas estava satisfeita. Havia dias definidos de nos encontrarmos, assim como havia com ela [só depois ele me disse que também a namorava] e um acordo sobre uma outra pessoa nessas relações: não haveria uma.

Com esse, não sofria tanto quanto o primeiro, mas ficava sempre uma dúvida pairando no ar sobre o que significava aquilo e de quanto de amor e carinho ele me dedicava, mas eu pensava comigo mesma: “Namorar é isso!”.

O terceiro relacionamento era um relacionamento “”””””aberto””””””. Sim, com muitas aspas, primeiro porque eu não o designava assim, muito menos sabia o que isso significava e depois porque era assim pra mim e não para o outro. Esse foi um dos relacionamentos que mais me doeu: sem saber bem o porquê, nosso encontro só acontecia nos horários das últimas aulas e ninguém, absolutamente ninguém podia saber que namorávamos. É claro que minhas amigas todas sabiam, mas nenhum amigo dele, ninguém da comunidade ou da escola podia imaginar que estávamos nos encontrando, por isso tudo era escondido.

Ele [branco], alegava que não era ainda a hora, que precisávamos amadurecer o relacionamento. E eu, enquanto isso, ia ficando com outros moços e acreditando que ele não namorava mais ninguém. Filávamos aula, ultrapassávamos o horário de ir pra casa, invadindo o turno da tarde mas não ousávamos ficar em festas, lanchonetes, reuniões de amigos. E eu pensava: “Namorar é isso!”.

Por fim, o relacionamento mais abusivo de todos: eu imaginava que estava sendo amada incondicionalmente. Um homem negro, lindo e inteiro cuidava de mim, estava sempre perto, bem perto. Até eu perceber que era perto demais. Num momento de transição bastante importante, que foi o ingresso na universidade e a descoberta da liberdade, o homem que eu amava começou a me sufocar.

No início, o que eram boas surpresas – como os aparecimentos repentinos no estágio – viraram ameaças, emboscadas e chantagens. Ligações no meio das aulas, insinuações de traição e argumentos que me colocavam sempre como culpada. Até que num acesso de ciúmes, ele brigou com alguém que passara e me olhara na rua e a violência chegou até minha família [que óbvio, me culpou pelo relacionamento]. E nesse fim eu pensei: “Namorar é isso, querida”.

Muito tempo depois, quando me tornei negra*, quando descobri-me senhora de mim, percebi que namorar nunca foi nada daquilo. Não era, não podia ser.

Somos nutridas ao longo da vida por ideias de que para ser feliz é preciso sofrer, de que relacionamentos precisam ter ciúmes e de que os modelos dos folhetins das 9 precisam ser replicados em nossas vidas, porque se não, não é verdade.

Dei-me conta de que preconceitos, racismos, violências e frustrações alheias minaram todos meus relacionamentos até então, e foram nomeados de amor e trouxeram mais sofrimento do que alegria. Percebi que nem eu nem ninguém merecia negar-se a si mesmo, em nome de uma gota de sentimentos, restos do tacho do amor que sobrou de outro alguém.

E isso não é a gente que faz. Não é culpa nossa. É aquela velha mania construída de se render a um “amor” como se não houvesse nenhum outro do qual sejamos dignas. Como se fosse a última oportunidade de ser amada e de que “se ele me aceitou, afinal, preciso somente corresponder às expectativas”.

Nós, mulheres negras, não precisamos de migalhas de amor. Precisamos nos negar a acreditar que qualquer coisa nos vale, qualquer coisa é melhor que estar só. Não, não é.

Como bem disse Bell Hooks no seu emocionante texto Vivendo de Amor:

Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor. (…) A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens.

 

Precisamos nos enxergar como mulheres amadas e capazes de nos amar em primeiro lugar e depois então, doarmos nosso amor a quem quer que seja [que escolhamos, claro]. Precisamos construir nosso afeto, nosso amor próprio, nossa solidariedade conosco e com as outras e assim vamos entender a liberdade que só o amor proporciona. E sem pena, sem rancor e sem desespero descobriremos que amar ou namorar não é nada daquilo que fizeram questão de nos mostrar.

Namorar pode ser mais. E será.

 

*referência ao texto de Sueli Carneiro Tornar-se Negra.

Mirian França, a polícia e o genocídio das mulheres negras

Nessa quarta-feira fariam 15 dias que Mirian França foi acusada e presa arbitrariamente sob suspeita de ter assassinado Gaia Molinari.

Mirian França, carioca e doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro estava de férias no Ceará, onde tinha planos de passar o Reveillon passeando pelas praias do Estado.

Gaia Molinari se hospedou no Hostel Refúgio, onde conheceu a farmacêutica, pesquisadora e doutora Mirian França. As duas conversaram e Mirian comentou que a mãe havia desistido de viajar para Jericoacoara e Gaia se ofereceu para acompanhar a carioca, já que as reservas estavam feitas para duas pessoas e a italiana não teria gastos extras com quartos.

Ao que se sabe, as duas não eram amigas de longa data. Apesar dos rumores levantados pela investigação policial de um relacionamento, amigos e parentes não confirmam tal versão:

“Mirian vinha programando essa viagem há tempos. Ela até me perguntou se eu conhecia as redondezas de Fortaleza, porque estava muito animada em conhecer as praias paradisíacas. Infelizmente, eu não pude ajudá-la porque desconhecia o território. Mas se eu soubesse que era um local violento, eu nunca indicaria visitas nesses locais.

Quando Mirian soube da morte de Gaia, ela procurou ser testemunha e por se contradizer passou a ser suspeita e foi imediatamente presa pela delegada Patrícia Bezerra. Acreditem, uma das contradições seria sobre quantas vezes Gaia tomou café da manhã”

Bruno Nunes, no seu perfil do Facebook.

 

Diferente dos outros acusados e suspeitos que foram levados a depor, Mirian França foi a única intimada a colaborar com a investigação e não saiu da delegacia, ficando presa por 14 dias, pois segundo a delegada do caso, suas declarações eram inconsistentes e contraditórias.

D. Valdicéia – mãe de Mirian -, as mulheres negras e todos os pertencentes aos grupos negros que se mobilizaram durante esses dias não tem dúvida: a prisão arbitrária de Mirian França é um caso explícito de racismo e demonstra como trabalha a polícia e a justiça nesse país. Está claro também que a morte de Gaia faz parte de uma prática que vem sido conhecida pelos cearenses nos últimos anos – o feminicídio – e que quase nunca termina em solução ou justiça para as vítimas, mas é óbvio que a prioridade não é somente esclarecer a população acerca dos crimes ou agir sistematicamente combatendo a violência contras as mulheres. A preocupação do Estado do Ceará é com a imagem passada aos turistas e futuros visitantes durante a alta temporada: segundo alguns comentários, a prisão de Mirian França fazia parte de uma dessas medidas emergenciais para demonstrar efetividade e ação do Estado.

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Entendendo que essas práticas são sim sintomas de um sistema perverso, racista e machista, preciso mencionar outra mulher negra vítima das ações policiais: Haíssa Vargas Motta, carioca de 22 anos foi lembrada essa semana, depois da divulgação do vídeo da ação dos policiais que mostra o despreparo e a brutalidade da instituição mais racista do Brasil.

As imagens só confirmam o que a gente já sabe: eles atiram pra depois perguntar! Ferindo de morte uma jovem negra e junto com ela sua comunidade, sua família.

Haíssa não será esquecida, assim como Cláudia e tantas outras mulheres negras que são alvo da violência policial e viram para as grandes mídias estatística de corpos negros que sangram mediante ao genocídio da nossa população.

Não coincidentemente no último domingo presenciei a abordagem de policiais a duas mulheres negras no evento “Canto da Rua”, no Jardim dos Namorados, em Salvador. Terminado o show, depois de [claro!] abordar um grupo de jovens negros de maneira humilhante, um grupo de policiais identificados pela numeração 2004 abordou duas mulheres que haviam argumentando algo aos mesmos. A cena foi revoltante!

Os policiais – homens e agindo contra a lei, diga-se de passagem – imobilizaram uma das mulheres, colocando um dos braços dela para trás e a outra, vendo a ação, correu para socorrer a amiga, que em vão era jogada no chão. As duas se abraçaram, num ato solidário e de resistência, mas não adiantou. Os dois policiais continuaram a agressão e levaram as duas mulheres em direção a viatura. A multidão perplexa e paralisada nada fez a não ser conversar entre si sobre a atrocidade e recuar, quando novamente um bando de policiais voltara para inspecionar algo pelo chão.

Como bem nos alertou Jaqueline Gomes de Jesus:

É bastante apontado, pelos movimentos negros, o uso excessivo dos poderes de polícia no que tange à revista de homens negros (popularmente conhecida como “baculejo” ou “dar uma dura”), principalmente os jovens, mas, igualmente, as políticas de detenção e de custódia são envoltas em constantes dúvidas quanto a sua eficácia e adequação, quando aplicadas à população negra.

Mirian França recebeu ontem a liberação da prisão preventiva, depois de muita pressão social, de reuniões entre órgãos públicos, delegados, advogados e ativistas. Atos e mobilizações, petições , compartilhamentos e comentários de mais de 6 mil pessoas no evento do Facebook. Mas a marca do racismo ficará pra sempre em Mirian e em nós, mulheres negras. O medo de ser a próxima nos assombra e por isso permaneceremos atentas.

Haíssa viverá para sempre na memórias de nossas mulheres, sua família continuará clamando por justiça, assim com a família de Cláudia e a daquelas duas jovens que foram até o Jardim dos Namorados se divertir e acabaram no camburão de uma viatura.

Permaneceremos com os punhos em riste, continuaremos com essas mulheres negras nas nossas memórias e lutaremos sempre contra o fim dos autos de resistência, contra os baculejos e abordagens policiais ilegais e a favor da desmilitarização da polícia que é racista, machista, homolesbotransfóbica.

 

REFERÊNCIAS:

Mamapress – https://mamapress.wordpress.com/page/3/

Evento Facebook Libertem Mirian França –https://www.facebook.com/events/1541526549436470/?ref=ts&fref=ts

O Caso Haíssa Motta – http://www.geledes.org.br/nao-tem-perdao-diz-irma-de-jovem-morta-por-engano-por-pms/#axzz3Oc0ZtHOU

Blog Jaque Jesus – http://jaquejesus.blogspot.com.br/2015/01/o-caso-mirian-franca.html

 

I woke up like this: os mecanismos do racismo na música

Acordei com aquela angústia no peito, depois de ter assistido o doc-minissérie Tim Maia na rede globo de televisão. Aquele aperto e desespero que só vão se desfazendo quando a gente derrama as palavras, transformando-as em mal traçadas linhas.

Desde que foi anunciada a minissérie, vinha acompanhando e pesquisando sobre o cenário da música negra no Brasil e no mundo. Como não acredito em coincidência, entendi que o recado estava dado quando “acidentalmente” parei num canal da TV onde passava o documentário sobre a vida de James Brown.

Soa até ingênuo tentar englobar nesse texto todas as contribuições da comunidade negra na música ao redor do mundo. É lógico que serei incapaz de destrinchar e incluir todxs xs grandes artistas que foram, são e serão referências dentro dos seus gêneros musicais aqui no Brasil e no mundo todo, mas tentarei de uma forma geral dar sentido histórico e explicar nessas poucas palavras como age o racismo, o machismo na música negra, usando as mídias e a indústria cultural como plano de fundo.

A primeira coisa a ser dita é que ninguém faz nada sozinho. Assim, todos os movimentos (sejam eles literários, sociais ou artísticos) são resultado de uma junção de pessoas e coletivos trabalhando naquele mesmo período uma mesma ideia, ainda que em diferentes lugares, linguagens ou expressões. Por isso, o fato de achar que um artista, seja ele branco ou negro, é um gênio e que de uma hora pra outra teve uma “iluminação” e pariu uma obra sozinho é ingênua.

Como afirma o escritor Alex Ratts, no seu perfil do site social:

Na abordagem da trajetória de artistas negrxs como ele e outrxs que atravessaram o mercado, mas não apenas sucumbiram, falta vê-lxs (com raras exceções críticas), como expressão da diáspora africana nas Américas, entre dilemas da arte e da política, o que pode suplantar as imagens feitas pelos filtros midiáticos.

Não é possível pensar na existência de uma expressão sem levar em consideração os enlaces, tramas e ressignificações políticas, sociais e culturais que partem de diferentes lugares do mundo e que são influências claras para a construção das artes, sobretudo no caso da música.

Partindo do meu lugar, de mulher negra, e sem me ater ao tempo cronológico, vou começar pela Axé Music. Essa que é hoje sinônimo da industria cultural baiana que mais fatura no carnaval e fora dele, foi e é construída a partir das influências negras vindas de várias partes do mundo e que chegou até os guetos: os Blocos Afro foram/são os catalisadores e disseminadores do estilo musical que juntou ijexá, meregue (alguns ditos ritmos latinos) e frevo. O ritmo que explodiu as rádios, os ouvidos e as cinturas de baianos e brasileiros trouxe pra mídia ícones como a Banda Reflexus e sua cantora Marinez, de voz forte e  inigualável. O Ilê Ayê, os Filhos de Gandhy e o AraKetu são alguns poucos exemplos da imensa gama de agremiações e grupos que beberam da fonte da cultura, da política e da música negra de diversos lugares do mundo, vide a canção “Libertem Mandela”, com letra do compositor Rey Zulu e interpretada pela Banda Reflexus.

Porém, o que conhecemos hoje como Axé Music pouco lembra o que aconteceu nos anos 80, a começar pelo protagonismo das cantoras brancas e oriundas das escolas de música da high society baiana, passando pela invisibilidade de cantoras como Margareth Menezes, Márcia Short e Alobened Airam (ex Banda Mel), terminando com o esquecimento dos compositores negros que estão por trás dos hits de sucesso, como Rey Zulu, Alain Tavares e Magary Lord.

Pegando a ponte aérea e indo lá pra Jamaica dos anos 60, a gente não vê diferença no que o racismo fez com os “The Wailing Wailers”: primeiro grupo no qual os integrantes eram Bunny Wailer, Bob Marley e Peter Tosh. Esses três, depois de bater bastante biela, foram contratados pela gravadora Island Record, de Chris Blackwell que logo fez o favor de tirar da banda o tecladista mais retinto e dito “problemático” – Peter Tosh – e colocar como protagonista e destaque a voz do meio, Bob Marley.

The Wailing

É claro que esse episódio é só mais uma pequena mostra do que o racismo pode fazer na indústria da música, já que não demoraria muito pra que um dos maiores sucessos do primeiro artista negro oriundo de um país subdesenvolvido ficasse conhecido não pela sua voz, mas pelos timbres de Eric Clapton. Sim, Bob Marley escreve e grava “I shot the Sheriff”, mas só na voz do branco roqueiro, que por sinal estava sem gravar há 4 anos, a música alcança o primeiro lugar nas rádios americanas e européias.

O poeta jamaicano, Linton Kwesi Johnson no documentário “I shot the sheriff”, diz:

Na história da música negra, nós criamos um estilo particular de música e são os artistas brancos que faturam com isso. Isso acontece desde Elvis Presley até Eminem. Não há nada de surpreendente.

E se mirarmos com mais atenção, perceberemos que existem algumas características comuns e básicas na atuação do racismo na música. O que aconteceu com Bob Marley, rolou com Chuck Berry que foi precursor de Presley e está hoje em Anitta, Cláudia Leite e Iggy Azalea: apropriação!

A industria da música se apropria dos discursos, dos estilos e linhas básicas da música negra, garimpando-as e entregando assim a representantes brancxs, tornando o produto “palatável” e pronto pra ser consumido da forma mais padronizada possível.

Reparem que nesse quesito, o racismo não poupa gênero: quem aqui ainda se lembra de Tati Quebra Barraco e seu protagonismo no Funk Carioca? Uma das primeiras mulheres a usar discurso de liberdade sexual no início dos anos 90 foi engolida pelas outras funkeiras brancas e magras, que até fazem proibidão, mas preferem polir suas letras para tocar no rádio e ser aceitas na TV e nas propagandas de produtos de limpeza.

Reconhecimento tardio é outro traço do racismo na música: o que dizer da invisibilidade no início da carreira relegada a artistas como Jovelina Pérola Negra, Ella Fitzgerald, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Cesária Évora? Muitas delas tiveram que trabalhar em outras áreas, pois não eram aceitas no mundo da música – ou só tiveram seu primeiro álbum gravado na terceira idade, como foi o caso de Clementina e Cesária. Sem contar as trapaças, as negações e embranquecimentos como os que aconteceram aos artistas negros Tim Maia, James Brown, Michael Jackson, Peter Tosh e tantos outros ícones da black music.

Tentar esconder a contribuição e influência dos artistas negros na diáspora entre si, transformando esses em gênios isolados da cultura e da efervescência de suas épocas é o modo como o racismo encontrou para desconectar e invisibilizar as obras coletivas nas diversas épocas, além de claro, descreditar o feito das negras e negros na música brasileira e mundial.

Hoje, as mídias sociais e o acesso relativamente facilitado aos meios de produção fazem com que jovens artistas negros ganhem destaque na indústria da música, mas ainda assim vemos os tais mecanismos racistas a podar e apagar compositores, produtores, cantores e intérpretes negros e negras em detrimento de artistas brancos que venderão bem mais, seja qual estilo for.

Vendo Tim Maia e James Brown retratados de maneira nojenta e tendenciosa, tenho certeza que a história da black music está minada por racismo, machismo e escrotices que nos fazem acordar no outro dia querendo saber quando isso tudo vai mudar.

Por enquanto, seguimos ouvindo os argumentos enfáticos da espetacular Azealia Banks: