I woke up like this: os mecanismos do racismo na música

Acordei com aquela angústia no peito, depois de ter assistido o doc-minissérie Tim Maia na rede globo de televisão. Aquele aperto e desespero que só vão se desfazendo quando a gente derrama as palavras, transformando-as em mal traçadas linhas.

Desde que foi anunciada a minissérie, vinha acompanhando e pesquisando sobre o cenário da música negra no Brasil e no mundo. Como não acredito em coincidência, entendi que o recado estava dado quando “acidentalmente” parei num canal da TV onde passava o documentário sobre a vida de James Brown.

Soa até ingênuo tentar englobar nesse texto todas as contribuições da comunidade negra na música ao redor do mundo. É lógico que serei incapaz de destrinchar e incluir todxs xs grandes artistas que foram, são e serão referências dentro dos seus gêneros musicais aqui no Brasil e no mundo todo, mas tentarei de uma forma geral dar sentido histórico e explicar nessas poucas palavras como age o racismo, o machismo na música negra, usando as mídias e a indústria cultural como plano de fundo.

A primeira coisa a ser dita é que ninguém faz nada sozinho. Assim, todos os movimentos (sejam eles literários, sociais ou artísticos) são resultado de uma junção de pessoas e coletivos trabalhando naquele mesmo período uma mesma ideia, ainda que em diferentes lugares, linguagens ou expressões. Por isso, o fato de achar que um artista, seja ele branco ou negro, é um gênio e que de uma hora pra outra teve uma “iluminação” e pariu uma obra sozinho é ingênua.

Como afirma o escritor Alex Ratts, no seu perfil do site social:

Na abordagem da trajetória de artistas negrxs como ele e outrxs que atravessaram o mercado, mas não apenas sucumbiram, falta vê-lxs (com raras exceções críticas), como expressão da diáspora africana nas Américas, entre dilemas da arte e da política, o que pode suplantar as imagens feitas pelos filtros midiáticos.

Não é possível pensar na existência de uma expressão sem levar em consideração os enlaces, tramas e ressignificações políticas, sociais e culturais que partem de diferentes lugares do mundo e que são influências claras para a construção das artes, sobretudo no caso da música.

Partindo do meu lugar, de mulher negra, e sem me ater ao tempo cronológico, vou começar pela Axé Music. Essa que é hoje sinônimo da industria cultural baiana que mais fatura no carnaval e fora dele, foi e é construída a partir das influências negras vindas de várias partes do mundo e que chegou até os guetos: os Blocos Afro foram/são os catalisadores e disseminadores do estilo musical que juntou ijexá, meregue (alguns ditos ritmos latinos) e frevo. O ritmo que explodiu as rádios, os ouvidos e as cinturas de baianos e brasileiros trouxe pra mídia ícones como a Banda Reflexus e sua cantora Marinez, de voz forte e  inigualável. O Ilê Ayê, os Filhos de Gandhy e o AraKetu são alguns poucos exemplos da imensa gama de agremiações e grupos que beberam da fonte da cultura, da política e da música negra de diversos lugares do mundo, vide a canção “Libertem Mandela”, com letra do compositor Rey Zulu e interpretada pela Banda Reflexus.

Porém, o que conhecemos hoje como Axé Music pouco lembra o que aconteceu nos anos 80, a começar pelo protagonismo das cantoras brancas e oriundas das escolas de música da high society baiana, passando pela invisibilidade de cantoras como Margareth Menezes, Márcia Short e Alobened Airam (ex Banda Mel), terminando com o esquecimento dos compositores negros que estão por trás dos hits de sucesso, como Rey Zulu, Alain Tavares e Magary Lord.

Pegando a ponte aérea e indo lá pra Jamaica dos anos 60, a gente não vê diferença no que o racismo fez com os “The Wailing Wailers”: primeiro grupo no qual os integrantes eram Bunny Wailer, Bob Marley e Peter Tosh. Esses três, depois de bater bastante biela, foram contratados pela gravadora Island Record, de Chris Blackwell que logo fez o favor de tirar da banda o tecladista mais retinto e dito “problemático” – Peter Tosh – e colocar como protagonista e destaque a voz do meio, Bob Marley.

The Wailing

É claro que esse episódio é só mais uma pequena mostra do que o racismo pode fazer na indústria da música, já que não demoraria muito pra que um dos maiores sucessos do primeiro artista negro oriundo de um país subdesenvolvido ficasse conhecido não pela sua voz, mas pelos timbres de Eric Clapton. Sim, Bob Marley escreve e grava “I shot the Sheriff”, mas só na voz do branco roqueiro, que por sinal estava sem gravar há 4 anos, a música alcança o primeiro lugar nas rádios americanas e européias.

O poeta jamaicano, Linton Kwesi Johnson no documentário “I shot the sheriff”, diz:

Na história da música negra, nós criamos um estilo particular de música e são os artistas brancos que faturam com isso. Isso acontece desde Elvis Presley até Eminem. Não há nada de surpreendente.

E se mirarmos com mais atenção, perceberemos que existem algumas características comuns e básicas na atuação do racismo na música. O que aconteceu com Bob Marley, rolou com Chuck Berry que foi precursor de Presley e está hoje em Anitta, Cláudia Leite e Iggy Azalea: apropriação!

A industria da música se apropria dos discursos, dos estilos e linhas básicas da música negra, garimpando-as e entregando assim a representantes brancxs, tornando o produto “palatável” e pronto pra ser consumido da forma mais padronizada possível.

Reparem que nesse quesito, o racismo não poupa gênero: quem aqui ainda se lembra de Tati Quebra Barraco e seu protagonismo no Funk Carioca? Uma das primeiras mulheres a usar discurso de liberdade sexual no início dos anos 90 foi engolida pelas outras funkeiras brancas e magras, que até fazem proibidão, mas preferem polir suas letras para tocar no rádio e ser aceitas na TV e nas propagandas de produtos de limpeza.

Reconhecimento tardio é outro traço do racismo na música: o que dizer da invisibilidade no início da carreira relegada a artistas como Jovelina Pérola Negra, Ella Fitzgerald, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Cesária Évora? Muitas delas tiveram que trabalhar em outras áreas, pois não eram aceitas no mundo da música – ou só tiveram seu primeiro álbum gravado na terceira idade, como foi o caso de Clementina e Cesária. Sem contar as trapaças, as negações e embranquecimentos como os que aconteceram aos artistas negros Tim Maia, James Brown, Michael Jackson, Peter Tosh e tantos outros ícones da black music.

Tentar esconder a contribuição e influência dos artistas negros na diáspora entre si, transformando esses em gênios isolados da cultura e da efervescência de suas épocas é o modo como o racismo encontrou para desconectar e invisibilizar as obras coletivas nas diversas épocas, além de claro, descreditar o feito das negras e negros na música brasileira e mundial.

Hoje, as mídias sociais e o acesso relativamente facilitado aos meios de produção fazem com que jovens artistas negros ganhem destaque na indústria da música, mas ainda assim vemos os tais mecanismos racistas a podar e apagar compositores, produtores, cantores e intérpretes negros e negras em detrimento de artistas brancos que venderão bem mais, seja qual estilo for.

Vendo Tim Maia e James Brown retratados de maneira nojenta e tendenciosa, tenho certeza que a história da black music está minada por racismo, machismo e escrotices que nos fazem acordar no outro dia querendo saber quando isso tudo vai mudar.

Por enquanto, seguimos ouvindo os argumentos enfáticos da espetacular Azealia Banks:

 

 

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