Desconstruindo o feminismo: qual feminismo?

Ultimamente temos ouvido bastante essa palavra de quatro sílabas, soprada aos quatro ventos dos recônditos portais independentes de conteúdo até os grandes programas de tv das imensas corporações.

O que pouco se sabe é que essa corrente de pensamento, ideologia ou como queiram chamar ganhou esse nome a partir da luta das mulheres sufragistas estadunidenses, que tinham como reivindicação seu direito ao voto.

Mas bem antes disso, outras mulheres em outros lugares já demonstravam atitudes que podemos nomenclaturar como atitudes feministas.

Quando Sojourner Truth, mulher negra nascida em Nova Iorque, proferiu o discurso “Ain’t I a woman?” em 1851, era feminismo que ela fazia, sem ter esse nome. Quando as mulheres negras na diáspora, nos diversos países, se reuniram em quilombos, pallenques e organizaram entre si as comunidades independentes e autogestionadas, era feminismo o que elas faziam.

Hoje, as ialodês e mulheres nos centros comunitários, as domésticas organizadas, as mulheres trans negras e as catadoras de papel, todas são feministas na prática, sem de fato ter esse nome.

Estamos então falando de um feminismo que é construído no dia a dia, que tem correndo na sua veia o recorte de raça e classe, inevitavelmente.

Uma prática feminista que sem dúvida não pode negar as intersecções de ser mulher, negra e pobre. E que, por mais anti capitalista e anti racista você seja, jamais saberá o que é lidar com esses marcadores entrelaçados, todos os dias.

A opressão de mulheres não reconhece nenhuma fronteira, étnica ou racial, é verdade, mas isso não significa que ela é idêntica dentro destas diferenças.

Assim, os feminismos precisam ser práticas que considerem, reconsiderem, construam e desconstruam as especificidades das diversas mulheres, fazendo a intersecção entre as pautas e essa especificidades.

Como afirmou Nênis Vieira, no texto O Feminismo Negro é, principalmente, periférico

“As mulheres periféricas são quase que automaticamente feministas, nas suas trilpas, quintuplas jornadas.”

E desconstruir os feminismos significa abrir os olhos e as mentes para as outras manifestações de feminismo que não estão emolduradas em teses e teorias. Que estão na frente, reivindicando os tantos outros direitos das mulheres: à moradia, à saúde pública de qualidade, à condições de trabalho humanas e que estão para conjugar com o que lhes é legítimo e justo.

Porque é também dos feminismos a liberdade de escolha para as mulheres, e quando todas nós a tivermos, estaremos finalmente vislumbrando nossa igualdade.

 

Referência: Citação de Audre Lorde, em Carta a Mary Daly. Maio de 1979

Imagem: Mãe Olga de Alaketu

Dear white people – revejam seus privilégios

Os tempos tem mudado. Ultimamente me parece que tem sido mais legal ser preto do que qualquer outra coisa, e ser chamado de brancão passou a ser ofensa, racismo ao contrário, diriam alguns.

Recentemente revisitei alguns textos que tratavam de branquitude e tal e resolvi voltar a falar sobre já que, como havia dito antes, é muito normal e comum termos uma proliferação dos textos sobre negritude, racismo e etc e acabamos por esquecer da prima pobre (ou rica) que é a branquitude.

Como bem escreveu Lourenço Cardoso no artigo Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista:

“Vale lembrar que a teoria anti-racista, de maneira geral, tem restringido em pesquisar o oprimido, deixando de lado o opressor. Desta forma, é sugerido que a opressão é somente um “problema do oprimido” em que o opressor não se encontra relacionado. (…) Não se trata, portanto, de teoria sobre relações raciais, trata-se de uma abordagem unilateral, feita muitas vezes por prestigiados pesquisadores brancos preocupados em analisar o “problema do negro”.”

Pensando não só em contribuir para a disseminação do estudo da norma, mas principalmente em carinhosamente transformar meus amigos brancos acríticos em uma massa reluzente e consciente que componha a rara espécie da branquitude crítica, pretendo escurecer aqui uma série de questões sobre privilégio. Na verdade esse texto é também uma tentativa de complementar a série antiga de artigos escritos para as Blogueiras Negras.

Por isso, continuando de onde paramos, o privilégio branco, tentarei listar aqui alguns dos pontos mais críticos, ações e frases que demonstram onde e como a branquitude expressa e pratica seus racismos através do lugar de privilegiado. A ideia é que você branco, que não questiona suas vantagens raciais, possa enxergar, reconhecer e desconstruir essas atitudes. Vamos lá?

  1. Sabendo que ser branco significa estar num lugar de poder (simbólico, subjetivo e objetivo), amigos brancos sempre ofendem outros não-brancos quando são os donos da razão – estão com a última palavra, precisam sempre argumentar, sem se calar e ouvir – a verdade está com eles.
  2. Acontece sempre: se ofender quando chamado de branco. Gentes, vocês pertecem a esse grupo racial, quer queira, quer não. Você até pode ser anti-racista, estar em porcesso de desconstrução, mas você é branco. E isso ofende? Se ofende, porque? #Reflitão
  3. Minimizar privilégios: dizer que você teve que estudar muito (não duvido nunca), que não teve nunca nada de graça é minimizar toda a história de opressão e racismo relegado aos não-brancos, ao longo dos 300 anos de escravização. Desculpa, mas estar em posições de poder só por, independente de você querer ou não, ser branco faz parte do privilégio.
  4. Apropriar é daora: crer que, para lutar contra o racismo é necessário se apropriar de símbolos, cultura e etc já é demais, né? Achar que estar de turbante é valorizar uma cultura que não a sua e é lutar contra racismo, sendo você branco, é no mínimo palhaçada – é apropiração e isso não rola.
  5. Garantia de representação: nunca ter dúvida de que se verá na tv, revistas, livros didáticos é privilégio, baby.
  6. Orgulho da origem: contar que seu tatatataravó era italiano, espanhol ou de algum grupo branco europeu e apresentar orgulho enquanto conta essa história, é mais que privilégio, é achar que existe supremacia racial branca e que isso é de boa. Não quero dizer com isso que o problema é você, mas que isso faz parte da sistemática do racismo.
  7. Isenção de grupo: Ser privilegiado é nunca ter que falar em nome do grupo racial branco, e dessa maneira, se algum branco comete algum erro, não é o grupo o culpado, mas um caso individual.
  8. Ataque às cotas: bom, se você ataca as cotas raciais, já sabemos que defende a meritocracia; mas se você acha que elas são válidas somente quando são sociais, você esquece que as pessoas brancas tem mais chance de “merecer” a universidade somente por serem brancas.
  9. Privilégio do amor: Aqui, pensando nas relações amorosas e na construção social do amor, ser branco é poder escolher parceiros sexuais, ter vantagens em relação a eles – caso sejam não-brancos – e não ter que lidar com a solidão afetiva que atinge determinados grupos raciais.
  10. Invisibilidade crônica: e por fim, mas não menos importante, a possibilidade de não se discutir, não falar sobre ser branco, seus privilégios e opressões em detrimento a se pensar e falar sempre de negritude e das questões do negro como o centro do problema. Achar que você não faz parte do problema  também é privilégio branco.

É bem verdade que aqui não estão todas as possibilidades de exercer privilégio, quando se trata do ser branco. Também não estão nessa humilde lista alternativas nem soluções para o que significa a prática dessas opressões, porém destaca-las e lista-las já é um primeiro passo, que não será o derradeiro.

Importante também enegrecer que todas e cada uma dessas questões listadas não dizem respeito a indivíduos específicos, lembrando aqui o que eu gosto de argumentar sempre em que discuto coisas desse tipo: o foco é no sistema. Então, se você ficou #xatiado, está revolts e vai comentar no post, pense duas vezes se você não vai reproduzir algum privilégio, alguma opressão.

Acredito que esse seja o sentido da luta anti-racista: reconhecer e abrir mão dos seus privilégios, ao passo em que garante e permite o empoderamento dos indivíduos não-brancos.

Termino deixando vocês com uma citação do artigo de Lourenço Cardoso, que serve principalmente para a reflexão de brancos anti-racistas. Boa sorte na desconstrução de vocês!

“A idéia de superioridade racial constituinte da identidade racial branca, não é um traço de essência, é uma construção histórica e social, por isso, pode ser desconstruída (Hall, 2003, pp. 335-349). Aliás, trata-se de uma tarefa a ser realizada cotidianamente por brancos anti-racistas, que vivem o conflito de, por um lado, pertencerem a um grupo opressor e, por outro lado, colocarem-se contra a opressão.” (…) Os privilégios que resultam do pertencimento a um grupo opressor é um dos conflitos a serem enfrentados, particularmente, pelos brancos anti-racistas. Esse conflito pessoal tende a emergir no momento em que se visibiliza a identidade racial branca. Desta forma, a branquitude crítica segue mais um passo em direção à reconstrução de sua identidade racial com vistas à abolição do seu traço racista, mesmo que seja involuntário, mesmo que seja enquanto grupo. A primeira tarefa talvez seja uma dedicação individual cotidiana e, depois, a insistência na crítica e autocrítica quanto aos privilégios do próprio grupo.”

 

 

REFERÊNCIAS

http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/43101-20-exemplos-deplor%C3%A1veis-de-privil%C3%A9gio-branco.html

 http://correionago.ning.com/profiles/blogs/luta-negra-e-privil-gio-branco

 http://revistaumanizales.cinde.org.co/index.php/Revista-Latinoamericana/article/view/70/28