O dobro da perfeição e a metade do salário

Ou sobre ser impecável e não ter reconhecimento

Isso pode ser sobre mim, mas tenho certeza que alguma preta vai passar mais da metade desse texto balançando a cabeça em afirmativa ou mesmo chorando lembrando de como foi ter que chorar escondido no banheiro do seu antigo trabalho. 

É sobre trabalho. Sobre exploração. Sobre se aperfeiçoar, ser perfeita e fazer tudo pra não errar, mas quando errar ser demitida.

Sim, eu guardei toda minha angústia, decepção e tristeza por quase um ano e ruminei tudo desde então. O bolo de incompetência junto com o suco gástrico da ansiedade por não saber como sobreviver ao próximo mês ficaram presos na garganta durante todo esse tempo e agora seguem vomitados aqui, escorrendo pelos meus dedos.

Sempre amei o que faço e por isso mesmo sempre me dediquei a cada job – ah sim, sou publicitária – pesquisando, escrevendo, lendo, discutindo. A cada nova descoberta, uma reunião, um insight com os colegas de trabalho e o objetivo sendo sempre aperfeiçoar, melhorar minha prática como atendimento, meu relacionamento com as pessoas e com meu próprio trabalho: vender ideias (aff, clichezão). Pois bem, sempre notei que permanecia mais depois do expediente, lia mais, explicava mais no email ou fazia mais reuniões. Mas o elogio nunca chegou. O aumento no salário então, pior ainda.

E durante um grande período de análise, comecei a notar que os medíocres, os meeiros, as pessoas menos “”esforçadas”” eram as que estavam ali desde sempre. Nunca demitidas, mas também nunca inovadoras – talvez não seja essa a palavra – nunca “criativas”. Nenhum esforço pela perfeição, apenas o velho e bom “faz assim mesmo que o cliente gosta”.

Vou citar a pesquisadora Giovana Xavier no seu texto “Passados Presentes que habitam o Quarto de Empregada”, ela diz:

“Todas as estatísticas do IBGE relacionadas a renda per capita, a moradia, trabalho, saúde e demais indicadores sociais comprovam que desigualdades de classe são construídas de forma articulada com desigualdades de gênero e raça”

Se continuarmos fazendo esse recorte, lembrarei que apesar de alguns lugares onde trabalhei fazerem parecer existir uma diversidade até interessante nos seus quadros de funcionários, as mulheres e negros das equipes (seja de criação, atendimento ou produção) continuavam ganhando a mesma coisa por anos. E ganhando menos em relação a homens e brancos. E essa não é uma realidade exclusiva daqueles lugares. Basta perguntar pro seu colega (homem) que faz o mesmo que você o quanto ele ganha, preta.

Agora lembra o quanto você trabalha. Lembra o quanto de hora extra fizeste.

Um tapinha nas costas não paga o aluguel!

Dia desses surgiu nos grupos de whatsapp e outras redes, o blog Vamos falar sobre agencias que conta com os depoimentos anônimos de pessoas que trabalham nas diversas agências espalhadas pelo Brasil. Nem preciso dizer a quantidade de depoimento sobre estrelismo, arrogância e baixos salários não é? Imagina se a gente faz essa curadoria, organiza uns gráficos e espalha por ai…

Ouvir da sua funcionária que “promoção e salário justo somente para os homens, amigos dos chefes e ganhadores de cannes” deveria ser constrangedor né? Ainda mais numa agência que costuma brilhar nos festivais da vida, mas nem é. Nada de novo sob o sol.

Queria saber mesmo o que é que falta pra isso mudar. Porque não dá mais pra ver gente branca medíocre subindo nos degraus da grana sem nem se preocupar em dar o seu melhor – nem a METADE do seu melhor. Ou vai dizer que aquele cara que é tido como o fodão do trampo também não é o que mais chega tarde? Ou o que passa mais da metade das horas sem produzir. Meritocracia já! (ironic).

Entender como é possível um empregado cometer assédio e continuar trabalhando no mesmo lugar por ANOS. Alguns vão dizer que é segunda chance, eu chamaria de machismo e perpetuação de cultura do estupro – afinal, ele estava bêbado e não respondia pelos seus atos; um homem casado e de boa índole (cof cof) – e fim de papo.

Reconhecer que essa estrutura está falida e começar a olhar para o trabalho das mulheres, seja qual for o setor é imprescindível pra que a diversidade no seu ambiente de trabalho seja promovida de fato. Afinal, desacreditar ideias, negar espaços de conversa e podar a autonomia das mulheres é o clássico dos chefes criativos – sejam eles diretores de arte ou de atendimento. Mais fácil dar o braço a torcer quando aquele funcionário querido – e homem – fala (usando inclusive os argumentos e insights desenvolvidos por outrA).

É perceber que existe uma divisão sexual do trabalho e combatê-la:

“O patriarcado divide o trabalho entre homens e mulheres. Nessa separação, convencionou-se que existe trabalho de homem e trabalho de mulher. Nós, mulheres, ficamos com as atividades menos valorizadas e que recebem os menores salários. O racismo também divide o mundo do trabalho. No caso do Brasil, entre pessoas negras e brancas, onde as pessoas negras estão em grande desigualdade” (Mulheres, trabalho e autonomia: conhecendo os nossos direitos. organizado por Fernanda Meira. SOS Corpo Publicações)

Eu fiquei literalmente cansada. De calcular os minutos pra que tudo saia direito e incrível, sem erro, com o dobro de perfeição e continuar tendo que fazer isso a vida toda pra conseguir ter uma folga no dinheiro e comprar um ketchup. NÃO AGUENTO MAIS! Ser ignorada nas reuniões decisivas, ser achincalhada quando dava ideia de “por uma preta na campanha”, não ser respeitada por cobrar o job que tá atrasado ou ainda ser violentamente desrespeitada quando o criativo premiado te chama de incompetente, alegando não ser isso o que um atendimento faz. E isso é só um pedacinho da história. Essa sou só eu!

O silêncio não me protegeu. Demitida e enxergando altos lances injustos bem depois, resolvi dizer pra mim mesma e pra você que já cansou de balançar a cabeça até aqui: não quero mais ser escravizada. Não vai rolar trabalhar para um sonho que não é meu. Chega de pedir licença pra sentar no sofá, não vai rolar mais perguntar se eu posso folgar na quinta antes do meu aniversário. Parei de tocar pra ver os outros dançar.

A partir de hoje vai ser do meu jeito, com minhas habilidades com a minha (pouca ou nenhuma) perfeição, mas vai ser comigo mesmo. Sem precisar ir chorar no meu banheiro!

Não, não vou abrir minha própria agência, nem gerenciar outras pessoas, mas pretendo encarar meus sonhos e minhas vontades longe desses ambientes loucos e misóginos e racistas das agências. Cansei e se você ainda não cansou, reflita como anda sua vida nesse trampo “bacana”. Não aceite mais virar a noite só porque tem pizza no final, porque no final mesmo, ninguém nem lembra que você fez parte da equipe por mais de 5 anos e te confunde com o pedreiro da obra no corredor ou com a menina da limpeza 😉

No próximo texto talvez eu conte uma outra história mais feliz, ou menos. Mas pelo menos não demorará tanto, não será interrompida por “medo do mercado” ou muito menos porque não me pagaram direito. Eu mesma me pago, assim esperamos e tentaremos – eu e o aluguel do mês que vem.

 

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