O dobro da perfeição e a metade do salário

Ou sobre ser impecável e não ter reconhecimento

Isso pode ser sobre mim, mas tenho certeza que alguma preta vai passar mais da metade desse texto balançando a cabeça em afirmativa ou mesmo chorando lembrando de como foi ter que chorar escondido no banheiro do seu antigo trabalho. 

É sobre trabalho. Sobre exploração. Sobre se aperfeiçoar, ser perfeita e fazer tudo pra não errar, mas quando errar ser demitida.

Sim, eu guardei toda minha angústia, decepção e tristeza por quase um ano e ruminei tudo desde então. O bolo de incompetência junto com o suco gástrico da ansiedade por não saber como sobreviver ao próximo mês ficaram presos na garganta durante todo esse tempo e agora seguem vomitados aqui, escorrendo pelos meus dedos.

Sempre amei o que faço e por isso mesmo sempre me dediquei a cada job – ah sim, sou publicitária – pesquisando, escrevendo, lendo, discutindo. A cada nova descoberta, uma reunião, um insight com os colegas de trabalho e o objetivo sendo sempre aperfeiçoar, melhorar minha prática como atendimento, meu relacionamento com as pessoas e com meu próprio trabalho: vender ideias (aff, clichezão). Pois bem, sempre notei que permanecia mais depois do expediente, lia mais, explicava mais no email ou fazia mais reuniões. Mas o elogio nunca chegou. O aumento no salário então, pior ainda.

E durante um grande período de análise, comecei a notar que os medíocres, os meeiros, as pessoas menos “”esforçadas”” eram as que estavam ali desde sempre. Nunca demitidas, mas também nunca inovadoras – talvez não seja essa a palavra – nunca “criativas”. Nenhum esforço pela perfeição, apenas o velho e bom “faz assim mesmo que o cliente gosta”.

Vou citar a pesquisadora Giovana Xavier no seu texto “Passados Presentes que habitam o Quarto de Empregada”, ela diz:

“Todas as estatísticas do IBGE relacionadas a renda per capita, a moradia, trabalho, saúde e demais indicadores sociais comprovam que desigualdades de classe são construídas de forma articulada com desigualdades de gênero e raça”

Se continuarmos fazendo esse recorte, lembrarei que apesar de alguns lugares onde trabalhei fazerem parecer existir uma diversidade até interessante nos seus quadros de funcionários, as mulheres e negros das equipes (seja de criação, atendimento ou produção) continuavam ganhando a mesma coisa por anos. E ganhando menos em relação a homens e brancos. E essa não é uma realidade exclusiva daqueles lugares. Basta perguntar pro seu colega (homem) que faz o mesmo que você o quanto ele ganha, preta.

Agora lembra o quanto você trabalha. Lembra o quanto de hora extra fizeste.

Um tapinha nas costas não paga o aluguel!

Dia desses surgiu nos grupos de whatsapp e outras redes, o blog Vamos falar sobre agencias que conta com os depoimentos anônimos de pessoas que trabalham nas diversas agências espalhadas pelo Brasil. Nem preciso dizer a quantidade de depoimento sobre estrelismo, arrogância e baixos salários não é? Imagina se a gente faz essa curadoria, organiza uns gráficos e espalha por ai…

Ouvir da sua funcionária que “promoção e salário justo somente para os homens, amigos dos chefes e ganhadores de cannes” deveria ser constrangedor né? Ainda mais numa agência que costuma brilhar nos festivais da vida, mas nem é. Nada de novo sob o sol.

Queria saber mesmo o que é que falta pra isso mudar. Porque não dá mais pra ver gente branca medíocre subindo nos degraus da grana sem nem se preocupar em dar o seu melhor – nem a METADE do seu melhor. Ou vai dizer que aquele cara que é tido como o fodão do trampo também não é o que mais chega tarde? Ou o que passa mais da metade das horas sem produzir. Meritocracia já! (ironic).

Entender como é possível um empregado cometer assédio e continuar trabalhando no mesmo lugar por ANOS. Alguns vão dizer que é segunda chance, eu chamaria de machismo e perpetuação de cultura do estupro – afinal, ele estava bêbado e não respondia pelos seus atos; um homem casado e de boa índole (cof cof) – e fim de papo.

Reconhecer que essa estrutura está falida e começar a olhar para o trabalho das mulheres, seja qual for o setor é imprescindível pra que a diversidade no seu ambiente de trabalho seja promovida de fato. Afinal, desacreditar ideias, negar espaços de conversa e podar a autonomia das mulheres é o clássico dos chefes criativos – sejam eles diretores de arte ou de atendimento. Mais fácil dar o braço a torcer quando aquele funcionário querido – e homem – fala (usando inclusive os argumentos e insights desenvolvidos por outrA).

É perceber que existe uma divisão sexual do trabalho e combatê-la:

“O patriarcado divide o trabalho entre homens e mulheres. Nessa separação, convencionou-se que existe trabalho de homem e trabalho de mulher. Nós, mulheres, ficamos com as atividades menos valorizadas e que recebem os menores salários. O racismo também divide o mundo do trabalho. No caso do Brasil, entre pessoas negras e brancas, onde as pessoas negras estão em grande desigualdade” (Mulheres, trabalho e autonomia: conhecendo os nossos direitos. organizado por Fernanda Meira. SOS Corpo Publicações)

Eu fiquei literalmente cansada. De calcular os minutos pra que tudo saia direito e incrível, sem erro, com o dobro de perfeição e continuar tendo que fazer isso a vida toda pra conseguir ter uma folga no dinheiro e comprar um ketchup. NÃO AGUENTO MAIS! Ser ignorada nas reuniões decisivas, ser achincalhada quando dava ideia de “por uma preta na campanha”, não ser respeitada por cobrar o job que tá atrasado ou ainda ser violentamente desrespeitada quando o criativo premiado te chama de incompetente, alegando não ser isso o que um atendimento faz. E isso é só um pedacinho da história. Essa sou só eu!

O silêncio não me protegeu. Demitida e enxergando altos lances injustos bem depois, resolvi dizer pra mim mesma e pra você que já cansou de balançar a cabeça até aqui: não quero mais ser escravizada. Não vai rolar trabalhar para um sonho que não é meu. Chega de pedir licença pra sentar no sofá, não vai rolar mais perguntar se eu posso folgar na quinta antes do meu aniversário. Parei de tocar pra ver os outros dançar.

A partir de hoje vai ser do meu jeito, com minhas habilidades com a minha (pouca ou nenhuma) perfeição, mas vai ser comigo mesmo. Sem precisar ir chorar no meu banheiro!

Não, não vou abrir minha própria agência, nem gerenciar outras pessoas, mas pretendo encarar meus sonhos e minhas vontades longe desses ambientes loucos e misóginos e racistas das agências. Cansei e se você ainda não cansou, reflita como anda sua vida nesse trampo “bacana”. Não aceite mais virar a noite só porque tem pizza no final, porque no final mesmo, ninguém nem lembra que você fez parte da equipe por mais de 5 anos e te confunde com o pedreiro da obra no corredor ou com a menina da limpeza 😉

No próximo texto talvez eu conte uma outra história mais feliz, ou menos. Mas pelo menos não demorará tanto, não será interrompida por “medo do mercado” ou muito menos porque não me pagaram direito. Eu mesma me pago, assim esperamos e tentaremos – eu e o aluguel do mês que vem.

 

Mulheres também codam

“Vamos fazer um evento de tecnologia para mulheres, mas vamos focar na raça e classe! Você conhece mulheres negras e baianas que trabalham com TI?” Vamos chamá-las?”

Foi assim que me pus a pensar em como estamos enfrentando o avanço das tecnologias, a apropriação dos equipamentos e linguagens e as novas possibilidades de difusão da informação. Será que estamos reproduzindo a lógica dos meios “tradicionais” quando observamos quem pode ou não ter um computador, um celular? Quem está ou não está codando, desenvolvendo?

É verdade que as pesquisas mostram que há certa inclusão digital: Até o final de 2014, a expectativa era de que haveriam 7 bilhões de linhas celulares no mundo, sendo que mais da metade delas (3,6 bilhões) estaria na região Ásia-Pacífico. Outro dado é que, até o final de 2014, também segundo a UIT (União Internacional de Telecomunicações), cerca de 3 bilhões de habitantes do mundo usariam a internet. Além disso, dois terços desses usuários de internet estariam em países em desenvolvimento. Isso corresponde a uma penetração de 40% de internet no mundo, entretanto, um dado negativo é o de que mais de 90% das pessoas sem acesso à internet no mundo estão em países em desenvolvimento.

Bom, são notícias que ainda não sabemos se foram comprovadas -provavelmente foram superadas- mas ter acesso não significa que as pessoas fazem uso de todas as potencialidades de uma determinada ferramenta, como é o caso do celular ou da internet. Mas precisamos focar nas mulheres. Quanto dessa população é de mulheres? Em que continentes e quais são as condições de acesso dessas mulheres?

Buscando responder a pergunta da colega que está com a meta de reunir mulheres – e especificamente mulheres negras – em torno de tecnologia, fiz uma busca rápida nos meus sites sociais e percebi que de todas as mulheres que conheço (mais ou menos umas 1.500), aproximadamente 30 delas trabalham com tecnologia da informação – dentre produtoras de conteúdo, analistas de redes sociais e programadoras. O mais estarrecedor é que, dessas últimas, apenas 7 são desenvolvedoras de fato (entre games e softwares) e das sete apenas UMA, eu disse UMA é mulher negra.

Que nós, mulheres negras, não tínhamos acesso à tecnologia no passado, isso parece meio óbvio, mas o que ainda nos é estranho hoje? Como podemos continuar tão distante assim do que parece tão mais fácil e às nossas mãos?

É claro que a questão é muito mais complexa do que pesquisar minhas amigas de site social. O que separa as mulheres negras da tecnologia são anos de negação de educação formal, mais séculos de trabalhos forçados e de remuneração quase que inexistente, com o plus de todos os esteriótipos de raça e gênero a tira colo. Por isso, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que uma mulher negra pra ministrar uma oficina de php para meninas da periferia.

E aí, vamos imaginar um cenário onde as mulheres conseguem ter acesso a educação e à tecnologia, optando por entrar no mercado de TI na área que é considerada mais pesada: a de desenvolvimento. O que acontece? É tudo de boas?

Uma pesquisa recente da Universidade da California, revelou que ser uma “woman of color” – aqui uma expressão que é usada para mulheres negras, latinas e de outras etnias nos Estados Unidos – nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática é um duplo perigo. Por exemplo, foi reportado que, para as mulheres negras eram mais provável (77%) do que outras mulheres (66%) ter que provar pra si mesmo que é capaz sempre.

As mulheres latinas relataram que quando eles se afirmam reagindo, correm o risco de serem vistas com um comportamento com “raiva” ou “muito emocional”. Já as mulheres negras sentem que tem mais margem para expressar emoção, desde que elas não sejam percebidas como “mulheres negras raivosas”. Pois é. Se imagine tendo que lidar com isso todos os dias da sua vida, adicionando a isso esteriótipos como “mulheres não ruins em exatas”, “nem vou explicar porque ela não vai entender” e mais um zilhão de violências e preconceitos ridículos. Mas ainda há esperanças!

Projetos como o Black Girls Can Code que incentiva meninas de até 17 anos a não só desenvolverem software, mas construir robôs e fazer simulações com arduino e coisas do gênero, são um exemplo. Iniciativas como essa nos dão inspiração para que algo seja feito do lado de cá do hemisfério. Essa semana, em São Paulo está acontecendo a Semana da Mulher na Tecnologia, um projeto mais que importante, que debaterá questões como o passado, o presente e o futuro das Mulheres na Tecnologia, além de trazer um hackday com meninas e um encontro de gerações.

Incentivar as meninas é um pequeno grande passo. Dar suporte as mulheres, amigas ou conhecidas que aspiram coisas diferentes é um passo gigantesco. Só assim conseguiremos estar além da posse de ferramentas de tecnologia: estaremos de fato mudando nosso entorno, participando ativamente da produção e difusão da informação. Como afirmou Diana Maffia no e-book Internet em código feminino:

“(…) superar semelhante barreira exigiria não só ser usuárias da tecnologia, como também, participar equitativamente no desenvolvimento de software, bem como na política de distribuição de redes digitais, empresas e engenharias que correspondem a sua produção.”

Referências:

Número de celulares supera número de habitantes

Woman of color in STEM

Internet em código feminino

Desconstruindo o feminismo: qual feminismo?

Ultimamente temos ouvido bastante essa palavra de quatro sílabas, soprada aos quatro ventos dos recônditos portais independentes de conteúdo até os grandes programas de tv das imensas corporações.

O que pouco se sabe é que essa corrente de pensamento, ideologia ou como queiram chamar ganhou esse nome a partir da luta das mulheres sufragistas estadunidenses, que tinham como reivindicação seu direito ao voto.

Mas bem antes disso, outras mulheres em outros lugares já demonstravam atitudes que podemos nomenclaturar como atitudes feministas.

Quando Sojourner Truth, mulher negra nascida em Nova Iorque, proferiu o discurso “Ain’t I a woman?” em 1851, era feminismo que ela fazia, sem ter esse nome. Quando as mulheres negras na diáspora, nos diversos países, se reuniram em quilombos, pallenques e organizaram entre si as comunidades independentes e autogestionadas, era feminismo o que elas faziam.

Hoje, as ialodês e mulheres nos centros comunitários, as domésticas organizadas, as mulheres trans negras e as catadoras de papel, todas são feministas na prática, sem de fato ter esse nome.

Estamos então falando de um feminismo que é construído no dia a dia, que tem correndo na sua veia o recorte de raça e classe, inevitavelmente.

Uma prática feminista que sem dúvida não pode negar as intersecções de ser mulher, negra e pobre. E que, por mais anti capitalista e anti racista você seja, jamais saberá o que é lidar com esses marcadores entrelaçados, todos os dias.

A opressão de mulheres não reconhece nenhuma fronteira, étnica ou racial, é verdade, mas isso não significa que ela é idêntica dentro destas diferenças.

Assim, os feminismos precisam ser práticas que considerem, reconsiderem, construam e desconstruam as especificidades das diversas mulheres, fazendo a intersecção entre as pautas e essa especificidades.

Como afirmou Nênis Vieira, no texto O Feminismo Negro é, principalmente, periférico

“As mulheres periféricas são quase que automaticamente feministas, nas suas trilpas, quintuplas jornadas.”

E desconstruir os feminismos significa abrir os olhos e as mentes para as outras manifestações de feminismo que não estão emolduradas em teses e teorias. Que estão na frente, reivindicando os tantos outros direitos das mulheres: à moradia, à saúde pública de qualidade, à condições de trabalho humanas e que estão para conjugar com o que lhes é legítimo e justo.

Porque é também dos feminismos a liberdade de escolha para as mulheres, e quando todas nós a tivermos, estaremos finalmente vislumbrando nossa igualdade.

 

Referência: Citação de Audre Lorde, em Carta a Mary Daly. Maio de 1979

Imagem: Mãe Olga de Alaketu

Dear white people – revejam seus privilégios

Os tempos tem mudado. Ultimamente me parece que tem sido mais legal ser preto do que qualquer outra coisa, e ser chamado de brancão passou a ser ofensa, racismo ao contrário, diriam alguns.

Recentemente revisitei alguns textos que tratavam de branquitude e tal e resolvi voltar a falar sobre já que, como havia dito antes, é muito normal e comum termos uma proliferação dos textos sobre negritude, racismo e etc e acabamos por esquecer da prima pobre (ou rica) que é a branquitude.

Como bem escreveu Lourenço Cardoso no artigo Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista:

“Vale lembrar que a teoria anti-racista, de maneira geral, tem restringido em pesquisar o oprimido, deixando de lado o opressor. Desta forma, é sugerido que a opressão é somente um “problema do oprimido” em que o opressor não se encontra relacionado. (…) Não se trata, portanto, de teoria sobre relações raciais, trata-se de uma abordagem unilateral, feita muitas vezes por prestigiados pesquisadores brancos preocupados em analisar o “problema do negro”.”

Pensando não só em contribuir para a disseminação do estudo da norma, mas principalmente em carinhosamente transformar meus amigos brancos acríticos em uma massa reluzente e consciente que componha a rara espécie da branquitude crítica, pretendo escurecer aqui uma série de questões sobre privilégio. Na verdade esse texto é também uma tentativa de complementar a série antiga de artigos escritos para as Blogueiras Negras.

Por isso, continuando de onde paramos, o privilégio branco, tentarei listar aqui alguns dos pontos mais críticos, ações e frases que demonstram onde e como a branquitude expressa e pratica seus racismos através do lugar de privilegiado. A ideia é que você branco, que não questiona suas vantagens raciais, possa enxergar, reconhecer e desconstruir essas atitudes. Vamos lá?

  1. Sabendo que ser branco significa estar num lugar de poder (simbólico, subjetivo e objetivo), amigos brancos sempre ofendem outros não-brancos quando são os donos da razão – estão com a última palavra, precisam sempre argumentar, sem se calar e ouvir – a verdade está com eles.
  2. Acontece sempre: se ofender quando chamado de branco. Gentes, vocês pertecem a esse grupo racial, quer queira, quer não. Você até pode ser anti-racista, estar em porcesso de desconstrução, mas você é branco. E isso ofende? Se ofende, porque? #Reflitão
  3. Minimizar privilégios: dizer que você teve que estudar muito (não duvido nunca), que não teve nunca nada de graça é minimizar toda a história de opressão e racismo relegado aos não-brancos, ao longo dos 300 anos de escravização. Desculpa, mas estar em posições de poder só por, independente de você querer ou não, ser branco faz parte do privilégio.
  4. Apropriar é daora: crer que, para lutar contra o racismo é necessário se apropriar de símbolos, cultura e etc já é demais, né? Achar que estar de turbante é valorizar uma cultura que não a sua e é lutar contra racismo, sendo você branco, é no mínimo palhaçada – é apropiração e isso não rola.
  5. Garantia de representação: nunca ter dúvida de que se verá na tv, revistas, livros didáticos é privilégio, baby.
  6. Orgulho da origem: contar que seu tatatataravó era italiano, espanhol ou de algum grupo branco europeu e apresentar orgulho enquanto conta essa história, é mais que privilégio, é achar que existe supremacia racial branca e que isso é de boa. Não quero dizer com isso que o problema é você, mas que isso faz parte da sistemática do racismo.
  7. Isenção de grupo: Ser privilegiado é nunca ter que falar em nome do grupo racial branco, e dessa maneira, se algum branco comete algum erro, não é o grupo o culpado, mas um caso individual.
  8. Ataque às cotas: bom, se você ataca as cotas raciais, já sabemos que defende a meritocracia; mas se você acha que elas são válidas somente quando são sociais, você esquece que as pessoas brancas tem mais chance de “merecer” a universidade somente por serem brancas.
  9. Privilégio do amor: Aqui, pensando nas relações amorosas e na construção social do amor, ser branco é poder escolher parceiros sexuais, ter vantagens em relação a eles – caso sejam não-brancos – e não ter que lidar com a solidão afetiva que atinge determinados grupos raciais.
  10. Invisibilidade crônica: e por fim, mas não menos importante, a possibilidade de não se discutir, não falar sobre ser branco, seus privilégios e opressões em detrimento a se pensar e falar sempre de negritude e das questões do negro como o centro do problema. Achar que você não faz parte do problema  também é privilégio branco.

É bem verdade que aqui não estão todas as possibilidades de exercer privilégio, quando se trata do ser branco. Também não estão nessa humilde lista alternativas nem soluções para o que significa a prática dessas opressões, porém destaca-las e lista-las já é um primeiro passo, que não será o derradeiro.

Importante também enegrecer que todas e cada uma dessas questões listadas não dizem respeito a indivíduos específicos, lembrando aqui o que eu gosto de argumentar sempre em que discuto coisas desse tipo: o foco é no sistema. Então, se você ficou #xatiado, está revolts e vai comentar no post, pense duas vezes se você não vai reproduzir algum privilégio, alguma opressão.

Acredito que esse seja o sentido da luta anti-racista: reconhecer e abrir mão dos seus privilégios, ao passo em que garante e permite o empoderamento dos indivíduos não-brancos.

Termino deixando vocês com uma citação do artigo de Lourenço Cardoso, que serve principalmente para a reflexão de brancos anti-racistas. Boa sorte na desconstrução de vocês!

“A idéia de superioridade racial constituinte da identidade racial branca, não é um traço de essência, é uma construção histórica e social, por isso, pode ser desconstruída (Hall, 2003, pp. 335-349). Aliás, trata-se de uma tarefa a ser realizada cotidianamente por brancos anti-racistas, que vivem o conflito de, por um lado, pertencerem a um grupo opressor e, por outro lado, colocarem-se contra a opressão.” (…) Os privilégios que resultam do pertencimento a um grupo opressor é um dos conflitos a serem enfrentados, particularmente, pelos brancos anti-racistas. Esse conflito pessoal tende a emergir no momento em que se visibiliza a identidade racial branca. Desta forma, a branquitude crítica segue mais um passo em direção à reconstrução de sua identidade racial com vistas à abolição do seu traço racista, mesmo que seja involuntário, mesmo que seja enquanto grupo. A primeira tarefa talvez seja uma dedicação individual cotidiana e, depois, a insistência na crítica e autocrítica quanto aos privilégios do próprio grupo.”

 

 

REFERÊNCIAS

http://www.diarioliberdade.org/mundo/antifascismo-e-anti-racismo/43101-20-exemplos-deplor%C3%A1veis-de-privil%C3%A9gio-branco.html

 http://correionago.ning.com/profiles/blogs/luta-negra-e-privil-gio-branco

 http://revistaumanizales.cinde.org.co/index.php/Revista-Latinoamericana/article/view/70/28

 

Ele bate nela – A naturalização da violência

violência_mulher negra

Me lembro da primeira vez que fui a uma DEAM [delegacia da mulher] testemunhar em favor de uma amiga feminista negra que havia sofrido violências do seu ex-marido.

Durante os minutos mais longos da minha vida, enquanto aguardávamos a chegada da delegada, um dos policiais fazia o diagnóstico do fim de semana: das 20 ligações recebidas, somente 10 chegaram a ser detidos, dos 10 detidos, 6 foram liberados e dos 4 que ficaram detidos, somente 2 eram flagrantes e foram encaminhados a detenção da cidade.

Esse número é o retrato de como a violência contra a mulher é banalizada, encontrando pelo caminho várias barreiras legais e burocráticas e por isso mesmo tem se transformado na maior causa de morte de mulheres. Segundo o relatório do Ipea Tolerância Social a Violência Contra as mulheres, 82% dos entrevistados concordam com a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O machismo, o sexismo e a misoginia são os vetores que combinados a doses cavalares de desinformação, falta de empatia e brutalidade levam os homens a agredirem e matarem as mulheres. Sim, morremos simbolicamente todos os dias quando somos assediadas nas ruas, quando sofremos violência psicológica dentro das nossas próprias casas, mas morremos e – exponencialmente morremos de fato – nos casos de feminicídio cinicamente disfarçados de crime passional, espalhados por todo o país, todos os dias.

Há quem diga que o assassinato dos 4 filhos e suicídio de Marco Aurélio Almeida Santos, que colidiu seu carro contra uma carreta na BR-070, em Cocalzinho de Goiás, nada tem a ver com seu relacionamento com Samara, sua ex-mulher. Em sua carta, deixada nas mãos dela, ele afirma: “hoje será o último dia que você verá seus filhos e seu marido, pode ficar com a casa e voltar a sua vida, mas com meus filhos você não viverá essa pouca vergonha”. Há também que afirme que se ele estava em depressão, “era melhor ter matado a mulher e deixado os filhos”

Fica bastante clara a tolerância social à violência e a desvalorização da vida da mulher, onde nossa existência é mais que descartável, é inconveniente! E isso está tão naturalizado que a gente pode ouvir essas coisas sem nenhum pudor, sem ninguém exitar em falar: “Ah, mas era mulher”.

Naquele dia, minha amiga precisou alternar entre engolir o choro e chorar várias vezes enquanto nos contava sobre o que havia ocorrido na sua casa. Nem imagino o quanto ela sofreu tendo que fazer o relato mais algumas vezes para a delegada e para os outros agentes da DEAM. E assim, o ciclo da violência se repete várias e várias vezes e a cada momento que você tem que explicar porque ser chamada de “linda” no meio da rua não é elogio, ou contar aquele caso do cara que te encoxou no ônibus. Ou ainda repetir inúmeras vezes que a culpa do estupro no Caso New Hit não é das vítimas.

O que há de mais chocante nos casos de violência contra mulher são as contradições – que claro, são discursos e imagens contraditórias produzidas pelo próprio patriarcado. No Mapa da Violência de 2010, 78% dos entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas, ao passo que 65% concordam que a mulher agredida que continua com o marido gosta de apanhar. Queria de verdade entender essa lógica, que criminaliza a violência, mas ainda assim culpa a mulher e a transforma em seu próprio algoz. #TádifícilBrasil

Isso me faz lembrar que geralmente essas mulheres – as mais criminalizadas e ditas culpadas pela violência – tem características específicas, como as da minha amiga feminista negra. Mães solteiras, pobres e claro, pretas! No texto das Blogueiras FeministasA violência contra as mulheres negras”, Priscilla Caroline afirma:

As mulheres negras são as maiores vítimas da violência doméstica. Segundo os dados apresentados no Mapa da Violência, em 2010, morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de homicídio, diferença que vem se mantendo ao longo dos anos.

(…) 92,2% dos casos de agressão física das mulheres negras e em 89,3% dos casos das mulheres brancas, a violência aconteceu na própria residência, partindo do cônjuge, ex-cônjuge, parente ou conhecido. Ou seja, a violência no Brasil possui um importante viés de raça, estando a incidência de violência racista profundamente relacionada à violência sexista.

Posso apostar que aquelas estatísticas que mencionei logo no início do texto, relatada pelo policial da DEAM, são 100% de mulheres negras, entendendo inclusive que a localização da delegacia denuncia isso. Não tenho dúvidas que somos nós a grande ponta e todo o iceberg de vítimas nos casos de violência contra a mulher.

Isso porque, além de tudo, o fato de sermos mulher negra se traduz, significativamente, no exercício duplo da dominação masculina[1] onde agem em conjunto e embrincados os fatores gênero e raça.

Apesar da Lei Maria da Penha, que versa sobre a criminalização dos casos das várias violências contra as mulheres e a mais recente conquista, a inclusão do Feminicídio no código penal brasileiro, a gente sabe que zilhões de marcadores impedem que uma denúncia se concretize: desde as barreiras burocráticas, passando pela má vontade e falta de treinamento dos atores envolvidos no processo (policiais, agentes, delegados) até os medos, inseguranças e instabilidades na vida das mulheres negras.

Depois daquela denúncia e do meu depoimento no caso da minha amiga, fiquei pensando quantas mulheres não tem se quer a possibilidade de chegar na delegacia – seja por dinheiro de transporte, por medo ou por ameça do agressor. Refleti sobre quantas daquelas outras mulheres que estavam ali tinham “avançado” em seus casos, chegando até a medida protetiva que, dependendo da ação do agressor e do número de denúncias, demora meses ou até anos.

E tenho certeza que só o apoio de umas às outras, nossa luta e o empoderamento fará com que a violência contra a mulher deixe de ser tolerada e naturalizada.

 

REFERÊNCIAS:

[1] Mulheres negras vítimas de violência doméstica conjugal. Mirian Lúcia dos Santos. PUC São Paulo, 2011.

Mapa da Violência. A anatomia dos homicídios no Brasil. Julio Jacobo Waiselfisz, 2010.

Namorar não é isso

Quando eu comecei a me relacionar afetivamente [com meninos] eu devia ter mais ou menos 15 anos. Essa época em que a gente descobre que o amor da sua vida pode ser também o amor da vida de outra pessoa, ou mesmo que esse amor pode não ser correspondido e ainda assim continua sendo amor.

Bom, com 15 anos você ainda não se dá conta dos preconceitos nem dos fatos sociais minando decisões, relações individuais, e só depois [muito depois] você percebe os padrões se repetindo e aparecendo sempre como um anúncio em pop-up.

Na minha primeira paixão, o moço que era 3 anos mais velho que eu, fez questão que nem eu nem minhas amigas soubessem que ele tinha uma namorada. Sabendo ele que estava eu apaixonada, no segundo encontro ele teve a “necessidade” de garantir território e tentar uma relação sexual. Não rolou, eu já era mais safa do que imaginávamos [sim, eu não tinha me dado conta disso até outro dia] e logo meu “amor” esfriou. Ele, que era um moço branco, insistiu nisso algumas outras vezes, comigo sempre saindo à francesa, escapando da violência e pensando “Namorar é isso”.

Com o segundo rapaz, uma relação mais sólida, digamos assim. Apesar de entender que éramos infinitamente diferente nos objetivos [eu com 20 e ele 25], tínhamos um acordo bastante flexível: Ele tinha uma outra namorada com quem as relações sexuais eram permitidas, diferente de mim. Não sabia mesmo o que isso significava, nem quais eram as implicações noutras relações mais tarde, mas estava satisfeita. Havia dias definidos de nos encontrarmos, assim como havia com ela [só depois ele me disse que também a namorava] e um acordo sobre uma outra pessoa nessas relações: não haveria uma.

Com esse, não sofria tanto quanto o primeiro, mas ficava sempre uma dúvida pairando no ar sobre o que significava aquilo e de quanto de amor e carinho ele me dedicava, mas eu pensava comigo mesma: “Namorar é isso!”.

O terceiro relacionamento era um relacionamento “”””””aberto””””””. Sim, com muitas aspas, primeiro porque eu não o designava assim, muito menos sabia o que isso significava e depois porque era assim pra mim e não para o outro. Esse foi um dos relacionamentos que mais me doeu: sem saber bem o porquê, nosso encontro só acontecia nos horários das últimas aulas e ninguém, absolutamente ninguém podia saber que namorávamos. É claro que minhas amigas todas sabiam, mas nenhum amigo dele, ninguém da comunidade ou da escola podia imaginar que estávamos nos encontrando, por isso tudo era escondido.

Ele [branco], alegava que não era ainda a hora, que precisávamos amadurecer o relacionamento. E eu, enquanto isso, ia ficando com outros moços e acreditando que ele não namorava mais ninguém. Filávamos aula, ultrapassávamos o horário de ir pra casa, invadindo o turno da tarde mas não ousávamos ficar em festas, lanchonetes, reuniões de amigos. E eu pensava: “Namorar é isso!”.

Por fim, o relacionamento mais abusivo de todos: eu imaginava que estava sendo amada incondicionalmente. Um homem negro, lindo e inteiro cuidava de mim, estava sempre perto, bem perto. Até eu perceber que era perto demais. Num momento de transição bastante importante, que foi o ingresso na universidade e a descoberta da liberdade, o homem que eu amava começou a me sufocar.

No início, o que eram boas surpresas – como os aparecimentos repentinos no estágio – viraram ameaças, emboscadas e chantagens. Ligações no meio das aulas, insinuações de traição e argumentos que me colocavam sempre como culpada. Até que num acesso de ciúmes, ele brigou com alguém que passara e me olhara na rua e a violência chegou até minha família [que óbvio, me culpou pelo relacionamento]. E nesse fim eu pensei: “Namorar é isso, querida”.

Muito tempo depois, quando me tornei negra*, quando descobri-me senhora de mim, percebi que namorar nunca foi nada daquilo. Não era, não podia ser.

Somos nutridas ao longo da vida por ideias de que para ser feliz é preciso sofrer, de que relacionamentos precisam ter ciúmes e de que os modelos dos folhetins das 9 precisam ser replicados em nossas vidas, porque se não, não é verdade.

Dei-me conta de que preconceitos, racismos, violências e frustrações alheias minaram todos meus relacionamentos até então, e foram nomeados de amor e trouxeram mais sofrimento do que alegria. Percebi que nem eu nem ninguém merecia negar-se a si mesmo, em nome de uma gota de sentimentos, restos do tacho do amor que sobrou de outro alguém.

E isso não é a gente que faz. Não é culpa nossa. É aquela velha mania construída de se render a um “amor” como se não houvesse nenhum outro do qual sejamos dignas. Como se fosse a última oportunidade de ser amada e de que “se ele me aceitou, afinal, preciso somente corresponder às expectativas”.

Nós, mulheres negras, não precisamos de migalhas de amor. Precisamos nos negar a acreditar que qualquer coisa nos vale, qualquer coisa é melhor que estar só. Não, não é.

Como bem disse Bell Hooks no seu emocionante texto Vivendo de Amor:

Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor. (…) A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens.

 

Precisamos nos enxergar como mulheres amadas e capazes de nos amar em primeiro lugar e depois então, doarmos nosso amor a quem quer que seja [que escolhamos, claro]. Precisamos construir nosso afeto, nosso amor próprio, nossa solidariedade conosco e com as outras e assim vamos entender a liberdade que só o amor proporciona. E sem pena, sem rancor e sem desespero descobriremos que amar ou namorar não é nada daquilo que fizeram questão de nos mostrar.

Namorar pode ser mais. E será.

 

*referência ao texto de Sueli Carneiro Tornar-se Negra.

Mirian França, a polícia e o genocídio das mulheres negras

Nessa quarta-feira fariam 15 dias que Mirian França foi acusada e presa arbitrariamente sob suspeita de ter assassinado Gaia Molinari.

Mirian França, carioca e doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro estava de férias no Ceará, onde tinha planos de passar o Reveillon passeando pelas praias do Estado.

Gaia Molinari se hospedou no Hostel Refúgio, onde conheceu a farmacêutica, pesquisadora e doutora Mirian França. As duas conversaram e Mirian comentou que a mãe havia desistido de viajar para Jericoacoara e Gaia se ofereceu para acompanhar a carioca, já que as reservas estavam feitas para duas pessoas e a italiana não teria gastos extras com quartos.

Ao que se sabe, as duas não eram amigas de longa data. Apesar dos rumores levantados pela investigação policial de um relacionamento, amigos e parentes não confirmam tal versão:

“Mirian vinha programando essa viagem há tempos. Ela até me perguntou se eu conhecia as redondezas de Fortaleza, porque estava muito animada em conhecer as praias paradisíacas. Infelizmente, eu não pude ajudá-la porque desconhecia o território. Mas se eu soubesse que era um local violento, eu nunca indicaria visitas nesses locais.

Quando Mirian soube da morte de Gaia, ela procurou ser testemunha e por se contradizer passou a ser suspeita e foi imediatamente presa pela delegada Patrícia Bezerra. Acreditem, uma das contradições seria sobre quantas vezes Gaia tomou café da manhã”

Bruno Nunes, no seu perfil do Facebook.

 

Diferente dos outros acusados e suspeitos que foram levados a depor, Mirian França foi a única intimada a colaborar com a investigação e não saiu da delegacia, ficando presa por 14 dias, pois segundo a delegada do caso, suas declarações eram inconsistentes e contraditórias.

D. Valdicéia – mãe de Mirian -, as mulheres negras e todos os pertencentes aos grupos negros que se mobilizaram durante esses dias não tem dúvida: a prisão arbitrária de Mirian França é um caso explícito de racismo e demonstra como trabalha a polícia e a justiça nesse país. Está claro também que a morte de Gaia faz parte de uma prática que vem sido conhecida pelos cearenses nos últimos anos – o feminicídio – e que quase nunca termina em solução ou justiça para as vítimas, mas é óbvio que a prioridade não é somente esclarecer a população acerca dos crimes ou agir sistematicamente combatendo a violência contras as mulheres. A preocupação do Estado do Ceará é com a imagem passada aos turistas e futuros visitantes durante a alta temporada: segundo alguns comentários, a prisão de Mirian França fazia parte de uma dessas medidas emergenciais para demonstrar efetividade e ação do Estado.

haíssa_motta

Entendendo que essas práticas são sim sintomas de um sistema perverso, racista e machista, preciso mencionar outra mulher negra vítima das ações policiais: Haíssa Vargas Motta, carioca de 22 anos foi lembrada essa semana, depois da divulgação do vídeo da ação dos policiais que mostra o despreparo e a brutalidade da instituição mais racista do Brasil.

As imagens só confirmam o que a gente já sabe: eles atiram pra depois perguntar! Ferindo de morte uma jovem negra e junto com ela sua comunidade, sua família.

Haíssa não será esquecida, assim como Cláudia e tantas outras mulheres negras que são alvo da violência policial e viram para as grandes mídias estatística de corpos negros que sangram mediante ao genocídio da nossa população.

Não coincidentemente no último domingo presenciei a abordagem de policiais a duas mulheres negras no evento “Canto da Rua”, no Jardim dos Namorados, em Salvador. Terminado o show, depois de [claro!] abordar um grupo de jovens negros de maneira humilhante, um grupo de policiais identificados pela numeração 2004 abordou duas mulheres que haviam argumentando algo aos mesmos. A cena foi revoltante!

Os policiais – homens e agindo contra a lei, diga-se de passagem – imobilizaram uma das mulheres, colocando um dos braços dela para trás e a outra, vendo a ação, correu para socorrer a amiga, que em vão era jogada no chão. As duas se abraçaram, num ato solidário e de resistência, mas não adiantou. Os dois policiais continuaram a agressão e levaram as duas mulheres em direção a viatura. A multidão perplexa e paralisada nada fez a não ser conversar entre si sobre a atrocidade e recuar, quando novamente um bando de policiais voltara para inspecionar algo pelo chão.

Como bem nos alertou Jaqueline Gomes de Jesus:

É bastante apontado, pelos movimentos negros, o uso excessivo dos poderes de polícia no que tange à revista de homens negros (popularmente conhecida como “baculejo” ou “dar uma dura”), principalmente os jovens, mas, igualmente, as políticas de detenção e de custódia são envoltas em constantes dúvidas quanto a sua eficácia e adequação, quando aplicadas à população negra.

Mirian França recebeu ontem a liberação da prisão preventiva, depois de muita pressão social, de reuniões entre órgãos públicos, delegados, advogados e ativistas. Atos e mobilizações, petições , compartilhamentos e comentários de mais de 6 mil pessoas no evento do Facebook. Mas a marca do racismo ficará pra sempre em Mirian e em nós, mulheres negras. O medo de ser a próxima nos assombra e por isso permaneceremos atentas.

Haíssa viverá para sempre na memórias de nossas mulheres, sua família continuará clamando por justiça, assim com a família de Cláudia e a daquelas duas jovens que foram até o Jardim dos Namorados se divertir e acabaram no camburão de uma viatura.

Permaneceremos com os punhos em riste, continuaremos com essas mulheres negras nas nossas memórias e lutaremos sempre contra o fim dos autos de resistência, contra os baculejos e abordagens policiais ilegais e a favor da desmilitarização da polícia que é racista, machista, homolesbotransfóbica.

 

REFERÊNCIAS:

Mamapress – https://mamapress.wordpress.com/page/3/

Evento Facebook Libertem Mirian França –https://www.facebook.com/events/1541526549436470/?ref=ts&fref=ts

O Caso Haíssa Motta – http://www.geledes.org.br/nao-tem-perdao-diz-irma-de-jovem-morta-por-engano-por-pms/#axzz3Oc0ZtHOU

Blog Jaque Jesus – http://jaquejesus.blogspot.com.br/2015/01/o-caso-mirian-franca.html

 

I woke up like this: os mecanismos do racismo na música

Acordei com aquela angústia no peito, depois de ter assistido o doc-minissérie Tim Maia na rede globo de televisão. Aquele aperto e desespero que só vão se desfazendo quando a gente derrama as palavras, transformando-as em mal traçadas linhas.

Desde que foi anunciada a minissérie, vinha acompanhando e pesquisando sobre o cenário da música negra no Brasil e no mundo. Como não acredito em coincidência, entendi que o recado estava dado quando “acidentalmente” parei num canal da TV onde passava o documentário sobre a vida de James Brown.

Soa até ingênuo tentar englobar nesse texto todas as contribuições da comunidade negra na música ao redor do mundo. É lógico que serei incapaz de destrinchar e incluir todxs xs grandes artistas que foram, são e serão referências dentro dos seus gêneros musicais aqui no Brasil e no mundo todo, mas tentarei de uma forma geral dar sentido histórico e explicar nessas poucas palavras como age o racismo, o machismo na música negra, usando as mídias e a indústria cultural como plano de fundo.

A primeira coisa a ser dita é que ninguém faz nada sozinho. Assim, todos os movimentos (sejam eles literários, sociais ou artísticos) são resultado de uma junção de pessoas e coletivos trabalhando naquele mesmo período uma mesma ideia, ainda que em diferentes lugares, linguagens ou expressões. Por isso, o fato de achar que um artista, seja ele branco ou negro, é um gênio e que de uma hora pra outra teve uma “iluminação” e pariu uma obra sozinho é ingênua.

Como afirma o escritor Alex Ratts, no seu perfil do site social:

Na abordagem da trajetória de artistas negrxs como ele e outrxs que atravessaram o mercado, mas não apenas sucumbiram, falta vê-lxs (com raras exceções críticas), como expressão da diáspora africana nas Américas, entre dilemas da arte e da política, o que pode suplantar as imagens feitas pelos filtros midiáticos.

Não é possível pensar na existência de uma expressão sem levar em consideração os enlaces, tramas e ressignificações políticas, sociais e culturais que partem de diferentes lugares do mundo e que são influências claras para a construção das artes, sobretudo no caso da música.

Partindo do meu lugar, de mulher negra, e sem me ater ao tempo cronológico, vou começar pela Axé Music. Essa que é hoje sinônimo da industria cultural baiana que mais fatura no carnaval e fora dele, foi e é construída a partir das influências negras vindas de várias partes do mundo e que chegou até os guetos: os Blocos Afro foram/são os catalisadores e disseminadores do estilo musical que juntou ijexá, meregue (alguns ditos ritmos latinos) e frevo. O ritmo que explodiu as rádios, os ouvidos e as cinturas de baianos e brasileiros trouxe pra mídia ícones como a Banda Reflexus e sua cantora Marinez, de voz forte e  inigualável. O Ilê Ayê, os Filhos de Gandhy e o AraKetu são alguns poucos exemplos da imensa gama de agremiações e grupos que beberam da fonte da cultura, da política e da música negra de diversos lugares do mundo, vide a canção “Libertem Mandela”, com letra do compositor Rey Zulu e interpretada pela Banda Reflexus.

Porém, o que conhecemos hoje como Axé Music pouco lembra o que aconteceu nos anos 80, a começar pelo protagonismo das cantoras brancas e oriundas das escolas de música da high society baiana, passando pela invisibilidade de cantoras como Margareth Menezes, Márcia Short e Alobened Airam (ex Banda Mel), terminando com o esquecimento dos compositores negros que estão por trás dos hits de sucesso, como Rey Zulu, Alain Tavares e Magary Lord.

Pegando a ponte aérea e indo lá pra Jamaica dos anos 60, a gente não vê diferença no que o racismo fez com os “The Wailing Wailers”: primeiro grupo no qual os integrantes eram Bunny Wailer, Bob Marley e Peter Tosh. Esses três, depois de bater bastante biela, foram contratados pela gravadora Island Record, de Chris Blackwell que logo fez o favor de tirar da banda o tecladista mais retinto e dito “problemático” – Peter Tosh – e colocar como protagonista e destaque a voz do meio, Bob Marley.

The Wailing

É claro que esse episódio é só mais uma pequena mostra do que o racismo pode fazer na indústria da música, já que não demoraria muito pra que um dos maiores sucessos do primeiro artista negro oriundo de um país subdesenvolvido ficasse conhecido não pela sua voz, mas pelos timbres de Eric Clapton. Sim, Bob Marley escreve e grava “I shot the Sheriff”, mas só na voz do branco roqueiro, que por sinal estava sem gravar há 4 anos, a música alcança o primeiro lugar nas rádios americanas e européias.

O poeta jamaicano, Linton Kwesi Johnson no documentário “I shot the sheriff”, diz:

Na história da música negra, nós criamos um estilo particular de música e são os artistas brancos que faturam com isso. Isso acontece desde Elvis Presley até Eminem. Não há nada de surpreendente.

E se mirarmos com mais atenção, perceberemos que existem algumas características comuns e básicas na atuação do racismo na música. O que aconteceu com Bob Marley, rolou com Chuck Berry que foi precursor de Presley e está hoje em Anitta, Cláudia Leite e Iggy Azalea: apropriação!

A industria da música se apropria dos discursos, dos estilos e linhas básicas da música negra, garimpando-as e entregando assim a representantes brancxs, tornando o produto “palatável” e pronto pra ser consumido da forma mais padronizada possível.

Reparem que nesse quesito, o racismo não poupa gênero: quem aqui ainda se lembra de Tati Quebra Barraco e seu protagonismo no Funk Carioca? Uma das primeiras mulheres a usar discurso de liberdade sexual no início dos anos 90 foi engolida pelas outras funkeiras brancas e magras, que até fazem proibidão, mas preferem polir suas letras para tocar no rádio e ser aceitas na TV e nas propagandas de produtos de limpeza.

Reconhecimento tardio é outro traço do racismo na música: o que dizer da invisibilidade no início da carreira relegada a artistas como Jovelina Pérola Negra, Ella Fitzgerald, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Cesária Évora? Muitas delas tiveram que trabalhar em outras áreas, pois não eram aceitas no mundo da música – ou só tiveram seu primeiro álbum gravado na terceira idade, como foi o caso de Clementina e Cesária. Sem contar as trapaças, as negações e embranquecimentos como os que aconteceram aos artistas negros Tim Maia, James Brown, Michael Jackson, Peter Tosh e tantos outros ícones da black music.

Tentar esconder a contribuição e influência dos artistas negros na diáspora entre si, transformando esses em gênios isolados da cultura e da efervescência de suas épocas é o modo como o racismo encontrou para desconectar e invisibilizar as obras coletivas nas diversas épocas, além de claro, descreditar o feito das negras e negros na música brasileira e mundial.

Hoje, as mídias sociais e o acesso relativamente facilitado aos meios de produção fazem com que jovens artistas negros ganhem destaque na indústria da música, mas ainda assim vemos os tais mecanismos racistas a podar e apagar compositores, produtores, cantores e intérpretes negros e negras em detrimento de artistas brancos que venderão bem mais, seja qual estilo for.

Vendo Tim Maia e James Brown retratados de maneira nojenta e tendenciosa, tenho certeza que a história da black music está minada por racismo, machismo e escrotices que nos fazem acordar no outro dia querendo saber quando isso tudo vai mudar.

Por enquanto, seguimos ouvindo os argumentos enfáticos da espetacular Azealia Banks:

 

 

Racismo: também está quando você não vê

A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198 estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço desse ano, de um trote na mesma Faculdade.

O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi utilizada na processo. Os 198  estudantes serão processados por comercialização e distribuição de bebida alcoólica.

 Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio. 

Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é racismo.

O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial reinará sobre a justiça e equidade?

Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas deixadas pela opressão se fechem?

Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente naquele trote?

Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15 de março.

Carta Aberta à “Nega do cabelo duro”

Semana passada surgiu um vídeo no youtube onde uma criança branca (muito provavelmente estimulada pelos pais) faz uma paródia, em tons de “humor” sobre ser negra do cabelo duro. Vocês vão dizer que é histeria, que foi mal entendido ou coisa que o valha, mas a verdade é que esse tipo de “brincadeira” tem uma origem racista e de conotação ofensiva. Para saber mais sobre, é só dar uma olhada no post das Blogueiras Negras sobre Blackface. Enfim, nosso repúdio e manifesto contra o incentivo de atitudes racistas nas crianças:

blogagem_coletiva

Tania,

A primeira coisa a ser dita é que nada nos preparou para escrever essa carta. Mesmo assim, em nome de mães e pais negros e afrodescendentes, precisamos falar sobre um vídeo de sua responsabilidade postado no youtube. Estou falando de Sofia, Nega do Cabelo Duro, em que uma criança com o rosto pintado de negro interpreta essa famosa marchinha que há muito tempo sabemos ser racista.

Acreditamos que a pequena Sofia seja próxima a você, talvez sua filha, sobrinha. Ela aparece gesticulando e fazendo caretas, contrariada enquanto usa vários pentes. Seu cabelo é apresentado como complicado, “difícil”, “duro”. Enfim, não “desmancha nem na areia”. Somente o maior dos pentes, o amarelo, consegue resolver o “problema”. É o “pente que te penteia”.

Imagino também que você, como muitas pessoas, dirá que foi uma “divertida” e “inocente” “homenagem”. Que o objetivo dessa “brincadeira” não foi ofender mulheres (e meninas) negras e afrodescendentes. Só que foi justamente esse o efeito de seu vídeo, e por isso decidimos escrever, para que o preconceito contra nossa pele e nosso cabelo acabe.

Desde a colonização deste país, a pessoa negra é tratada como uma “raça à parte”, como se não fosse incluída na humanidade, como se nossa aparência não fosse “correta”. Como se o “normal” e desejável fosse ser branco, de cabelos lisos. Como muitas pessoas pensaram assim ao longo dos séculos e ainda pensam, o racismo ainda contamina profundamente a maneira como somos mostrados na televisão, nas revistas e também na internet.

A ideia de que ser branco é ser bonito faz com que milhões de mulheres pretas comprem produtos de alisamento e relaxamento para que seus cabelos percam volume, para que se sintam mais “aceitáveis” dentro de um padrão eurocêntrico racista. Assim como ensinou Sofia, nós também somos ensinadas que nossos cabelos são “ruins”, “difíceis de cuidar”. Que não são bonitos e nem práticos. Isso nos destrói por dentro desde muito cedo.

É assim que a autoestima de crianças, adolescentes e mulheres negras é destruída. É assim que, ao invés amar quem somos e nossas origens, aprendemos a odiar nossos corpos, nossos cabelos. É por isso que muitas de nós tentam se parecer com aquilo que o racismo diz que é correto, que é ser limpo, que é ter uma aparência profissional. É por isso que muitas mães alisam os cabelos de suas filhas tão cedo.

Só que, ao longo dos anos, homens e mulheres pretas vem se unindo para lutar contra o racismo. Trabalhamos o conceito de amor e de manutenção de nossas características individuais, que são lindas. Não somente entre nós, como também em nossos filhos, pois percebemos que é muito importante que o nosso povo não aceite tamanha opressão. Que acredite que a cor da nossa pele e a textura dos nosso cabelos não pode interferir na maneira como as pessoas nos enxergam.

Talvez você não saiba, mas pintar o rosto para fazer imitações de pessoas negras é racismo. É divertido para muita gente, mas não para todo mundo. É um tipo de humor que tem aparecido com muita frequência na televisão, infelizmente. Um dos maiores exemplo disso é a Dona Adelaide do Zorra Total. O nome desse tipo de piada em português é Cara preta (Black Face). Aqui você pode ler um ótimo artigo sobre o assunto, explicando com detalhes porque são terríveis.

É o tipo de piada que faz as pessoas pensarem que nós, negros, não somos bonitos, educados e honestos. Que nós, mulheres negras, não temos dentes, que nossos cabelos são feios. É o tipo de piada que ensina às crianças que pessoas negras são fedidas, feias, desagradáveis. Que não é muito bom ter amigos negros. Infelzimente, é quase sempre assim que nós, mulheres negras, aparecemos na televisão.

São essas pequenas grandes piadas que fazem com que as pessoas se esqueçam que nós somos humanos tanto quanto pessoas brancas. E quando as pessoas se esquecem que nós somos humanos, elas se acostumam com o racismo. O racismo, por sua vez, faz com que as pessoas achem normal que nossos jovens morram cedo, que nossas crianças não tenham educação de boa qualidade.

Precisamos dizer com toda sinceridade que estamos acostumadas com esse tipo de piada. Mas seu vídeo é o único que vi até hoje onde uma criança, que provavelmente não tem a menor ideia do que tudo isso significa, faz esse tipo de coisa. Por causa disso, não somos apenas nós, mulheres adultas, que somos motivo de riso. São nossas crianças, nossas filhas.

Falaremos em nome de todas as mães negras e afrodescendentes cujas filhas, infelizmente, serão chamadas de negas do cabelo duro várias vezes ao longo da vida. Certamente um “elogio” que nenhuma mãe gostaria de ouvir. Nós podemos, como mães e pais, combater esse racismo. Mas você também pode Tania, ensinando que esse tipo de brincadeira nunca deveria ser repetida.

Não conseguimos entender até agora que mensagem você tentou passar pra Sofia. Afinal de contas, está claro que a pequena é branca apenas pros padrões brasileiros, porque todo brasileiro se acha MUITO branco, né? Mas na verdade, sabemos que o motivo de seu cabelo ser cacheado é justamente o sangue africano correndo em suas veias, o que faz com que ela seja afrodescendente.

Sinceramente? Seu vídeo é de extremo mau gosto. Estimula crianças a desrespeitarem quem são. Afinal, por que ensinar uma criança a pintar seu rosto de preto, que “cabelo duro” é “coisa de preto”? Por que ensinar uma criança a ser racista? Por que não ensinar que todos os seres humanos nascem diferentes e que justamente por isso somos maravilhosos? Que devemos amar e respeitar quem é diferente de nós, por que é assim que seremos respeitados?

Estamos numa era de transformação, na qual todos os seres humanos se encaixam e devem ser respeitados. Uma época em que todos devemos nos amar como somos, com o cabelo que temos. Ensinar o contrário põe a perder o trabalho de séculos de luta para que seja quebrado de uma vez por todas este estigma de que pessoas negras são “feias”, tem o cabelo “duro”.

Pedimos, por favor, que repense sua atitude com relação a toda a população preta, mas principalmente com uma criança “branca” que está em formação. O racismo, desde o início dos tempos, é coisa ensinada e assim segue seu fluxo. Crianças aprendem em casa e reproduzem na escola o ódio ao preto, traduzido em “brincadeira de criança” para quem pratica, mas uma quebra da autoestima pra quem sofre.

Hoje, Sofia é apenas uma criança, mas um dia vai crescer e entender. Espero que até lá esse episódio triste seja superado. Que ela tenha a oportunidade de viver num Brasil sem racismo e preconceitos de todo o tipo. É o que desejamos para ela, de coração. Porque assim, desejamos para nós mesmas e para todas as nossas crianças negras e afrodescendentes. Agora e no futuro.

Assinam,

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