Mulheres também codam

“Vamos fazer um evento de tecnologia para mulheres, mas vamos focar na raça e classe! Você conhece mulheres negras e baianas que trabalham com TI?” Vamos chamá-las?”

Foi assim que me pus a pensar em como estamos enfrentando o avanço das tecnologias, a apropriação dos equipamentos e linguagens e as novas possibilidades de difusão da informação. Será que estamos reproduzindo a lógica dos meios “tradicionais” quando observamos quem pode ou não ter um computador, um celular? Quem está ou não está codando, desenvolvendo?

É verdade que as pesquisas mostram que há certa inclusão digital: Até o final de 2014, a expectativa era de que haveriam 7 bilhões de linhas celulares no mundo, sendo que mais da metade delas (3,6 bilhões) estaria na região Ásia-Pacífico. Outro dado é que, até o final de 2014, também segundo a UIT (União Internacional de Telecomunicações), cerca de 3 bilhões de habitantes do mundo usariam a internet. Além disso, dois terços desses usuários de internet estariam em países em desenvolvimento. Isso corresponde a uma penetração de 40% de internet no mundo, entretanto, um dado negativo é o de que mais de 90% das pessoas sem acesso à internet no mundo estão em países em desenvolvimento.

Bom, são notícias que ainda não sabemos se foram comprovadas -provavelmente foram superadas- mas ter acesso não significa que as pessoas fazem uso de todas as potencialidades de uma determinada ferramenta, como é o caso do celular ou da internet. Mas precisamos focar nas mulheres. Quanto dessa população é de mulheres? Em que continentes e quais são as condições de acesso dessas mulheres?

Buscando responder a pergunta da colega que está com a meta de reunir mulheres – e especificamente mulheres negras – em torno de tecnologia, fiz uma busca rápida nos meus sites sociais e percebi que de todas as mulheres que conheço (mais ou menos umas 1.500), aproximadamente 30 delas trabalham com tecnologia da informação – dentre produtoras de conteúdo, analistas de redes sociais e programadoras. O mais estarrecedor é que, dessas últimas, apenas 7 são desenvolvedoras de fato (entre games e softwares) e das sete apenas UMA, eu disse UMA é mulher negra.

Que nós, mulheres negras, não tínhamos acesso à tecnologia no passado, isso parece meio óbvio, mas o que ainda nos é estranho hoje? Como podemos continuar tão distante assim do que parece tão mais fácil e às nossas mãos?

É claro que a questão é muito mais complexa do que pesquisar minhas amigas de site social. O que separa as mulheres negras da tecnologia são anos de negação de educação formal, mais séculos de trabalhos forçados e de remuneração quase que inexistente, com o plus de todos os esteriótipos de raça e gênero a tira colo. Por isso, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que uma mulher negra pra ministrar uma oficina de php para meninas da periferia.

E aí, vamos imaginar um cenário onde as mulheres conseguem ter acesso a educação e à tecnologia, optando por entrar no mercado de TI na área que é considerada mais pesada: a de desenvolvimento. O que acontece? É tudo de boas?

Uma pesquisa recente da Universidade da California, revelou que ser uma “woman of color” – aqui uma expressão que é usada para mulheres negras, latinas e de outras etnias nos Estados Unidos – nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática é um duplo perigo. Por exemplo, foi reportado que, para as mulheres negras eram mais provável (77%) do que outras mulheres (66%) ter que provar pra si mesmo que é capaz sempre.

As mulheres latinas relataram que quando eles se afirmam reagindo, correm o risco de serem vistas com um comportamento com “raiva” ou “muito emocional”. Já as mulheres negras sentem que tem mais margem para expressar emoção, desde que elas não sejam percebidas como “mulheres negras raivosas”. Pois é. Se imagine tendo que lidar com isso todos os dias da sua vida, adicionando a isso esteriótipos como “mulheres não ruins em exatas”, “nem vou explicar porque ela não vai entender” e mais um zilhão de violências e preconceitos ridículos. Mas ainda há esperanças!

Projetos como o Black Girls Can Code que incentiva meninas de até 17 anos a não só desenvolverem software, mas construir robôs e fazer simulações com arduino e coisas do gênero, são um exemplo. Iniciativas como essa nos dão inspiração para que algo seja feito do lado de cá do hemisfério. Essa semana, em São Paulo está acontecendo a Semana da Mulher na Tecnologia, um projeto mais que importante, que debaterá questões como o passado, o presente e o futuro das Mulheres na Tecnologia, além de trazer um hackday com meninas e um encontro de gerações.

Incentivar as meninas é um pequeno grande passo. Dar suporte as mulheres, amigas ou conhecidas que aspiram coisas diferentes é um passo gigantesco. Só assim conseguiremos estar além da posse de ferramentas de tecnologia: estaremos de fato mudando nosso entorno, participando ativamente da produção e difusão da informação. Como afirmou Diana Maffia no e-book Internet em código feminino:

“(…) superar semelhante barreira exigiria não só ser usuárias da tecnologia, como também, participar equitativamente no desenvolvimento de software, bem como na política de distribuição de redes digitais, empresas e engenharias que correspondem a sua produção.”

Referências:

Número de celulares supera número de habitantes

Woman of color in STEM

Internet em código feminino

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Desconstruindo o feminismo: qual feminismo?

Ultimamente temos ouvido bastante essa palavra de quatro sílabas, soprada aos quatro ventos dos recônditos portais independentes de conteúdo até os grandes programas de tv das imensas corporações.

O que pouco se sabe é que essa corrente de pensamento, ideologia ou como queiram chamar ganhou esse nome a partir da luta das mulheres sufragistas estadunidenses, que tinham como reivindicação seu direito ao voto.

Mas bem antes disso, outras mulheres em outros lugares já demonstravam atitudes que podemos nomenclaturar como atitudes feministas.

Quando Sojourner Truth, mulher negra nascida em Nova Iorque, proferiu o discurso “Ain’t I a woman?” em 1851, era feminismo que ela fazia, sem ter esse nome. Quando as mulheres negras na diáspora, nos diversos países, se reuniram em quilombos, pallenques e organizaram entre si as comunidades independentes e autogestionadas, era feminismo o que elas faziam.

Hoje, as ialodês e mulheres nos centros comunitários, as domésticas organizadas, as mulheres trans negras e as catadoras de papel, todas são feministas na prática, sem de fato ter esse nome.

Estamos então falando de um feminismo que é construído no dia a dia, que tem correndo na sua veia o recorte de raça e classe, inevitavelmente.

Uma prática feminista que sem dúvida não pode negar as intersecções de ser mulher, negra e pobre. E que, por mais anti capitalista e anti racista você seja, jamais saberá o que é lidar com esses marcadores entrelaçados, todos os dias.

A opressão de mulheres não reconhece nenhuma fronteira, étnica ou racial, é verdade, mas isso não significa que ela é idêntica dentro destas diferenças.

Assim, os feminismos precisam ser práticas que considerem, reconsiderem, construam e desconstruam as especificidades das diversas mulheres, fazendo a intersecção entre as pautas e essa especificidades.

Como afirmou Nênis Vieira, no texto O Feminismo Negro é, principalmente, periférico

“As mulheres periféricas são quase que automaticamente feministas, nas suas trilpas, quintuplas jornadas.”

E desconstruir os feminismos significa abrir os olhos e as mentes para as outras manifestações de feminismo que não estão emolduradas em teses e teorias. Que estão na frente, reivindicando os tantos outros direitos das mulheres: à moradia, à saúde pública de qualidade, à condições de trabalho humanas e que estão para conjugar com o que lhes é legítimo e justo.

Porque é também dos feminismos a liberdade de escolha para as mulheres, e quando todas nós a tivermos, estaremos finalmente vislumbrando nossa igualdade.

 

Referência: Citação de Audre Lorde, em Carta a Mary Daly. Maio de 1979

Imagem: Mãe Olga de Alaketu

Ele bate nela – A naturalização da violência

violência_mulher negra

Me lembro da primeira vez que fui a uma DEAM [delegacia da mulher] testemunhar em favor de uma amiga feminista negra que havia sofrido violências do seu ex-marido.

Durante os minutos mais longos da minha vida, enquanto aguardávamos a chegada da delegada, um dos policiais fazia o diagnóstico do fim de semana: das 20 ligações recebidas, somente 10 chegaram a ser detidos, dos 10 detidos, 6 foram liberados e dos 4 que ficaram detidos, somente 2 eram flagrantes e foram encaminhados a detenção da cidade.

Esse número é o retrato de como a violência contra a mulher é banalizada, encontrando pelo caminho várias barreiras legais e burocráticas e por isso mesmo tem se transformado na maior causa de morte de mulheres. Segundo o relatório do Ipea Tolerância Social a Violência Contra as mulheres, 82% dos entrevistados concordam com a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O machismo, o sexismo e a misoginia são os vetores que combinados a doses cavalares de desinformação, falta de empatia e brutalidade levam os homens a agredirem e matarem as mulheres. Sim, morremos simbolicamente todos os dias quando somos assediadas nas ruas, quando sofremos violência psicológica dentro das nossas próprias casas, mas morremos e – exponencialmente morremos de fato – nos casos de feminicídio cinicamente disfarçados de crime passional, espalhados por todo o país, todos os dias.

Há quem diga que o assassinato dos 4 filhos e suicídio de Marco Aurélio Almeida Santos, que colidiu seu carro contra uma carreta na BR-070, em Cocalzinho de Goiás, nada tem a ver com seu relacionamento com Samara, sua ex-mulher. Em sua carta, deixada nas mãos dela, ele afirma: “hoje será o último dia que você verá seus filhos e seu marido, pode ficar com a casa e voltar a sua vida, mas com meus filhos você não viverá essa pouca vergonha”. Há também que afirme que se ele estava em depressão, “era melhor ter matado a mulher e deixado os filhos”

Fica bastante clara a tolerância social à violência e a desvalorização da vida da mulher, onde nossa existência é mais que descartável, é inconveniente! E isso está tão naturalizado que a gente pode ouvir essas coisas sem nenhum pudor, sem ninguém exitar em falar: “Ah, mas era mulher”.

Naquele dia, minha amiga precisou alternar entre engolir o choro e chorar várias vezes enquanto nos contava sobre o que havia ocorrido na sua casa. Nem imagino o quanto ela sofreu tendo que fazer o relato mais algumas vezes para a delegada e para os outros agentes da DEAM. E assim, o ciclo da violência se repete várias e várias vezes e a cada momento que você tem que explicar porque ser chamada de “linda” no meio da rua não é elogio, ou contar aquele caso do cara que te encoxou no ônibus. Ou ainda repetir inúmeras vezes que a culpa do estupro no Caso New Hit não é das vítimas.

O que há de mais chocante nos casos de violência contra mulher são as contradições – que claro, são discursos e imagens contraditórias produzidas pelo próprio patriarcado. No Mapa da Violência de 2010, 78% dos entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas, ao passo que 65% concordam que a mulher agredida que continua com o marido gosta de apanhar. Queria de verdade entender essa lógica, que criminaliza a violência, mas ainda assim culpa a mulher e a transforma em seu próprio algoz. #TádifícilBrasil

Isso me faz lembrar que geralmente essas mulheres – as mais criminalizadas e ditas culpadas pela violência – tem características específicas, como as da minha amiga feminista negra. Mães solteiras, pobres e claro, pretas! No texto das Blogueiras FeministasA violência contra as mulheres negras”, Priscilla Caroline afirma:

As mulheres negras são as maiores vítimas da violência doméstica. Segundo os dados apresentados no Mapa da Violência, em 2010, morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de homicídio, diferença que vem se mantendo ao longo dos anos.

(…) 92,2% dos casos de agressão física das mulheres negras e em 89,3% dos casos das mulheres brancas, a violência aconteceu na própria residência, partindo do cônjuge, ex-cônjuge, parente ou conhecido. Ou seja, a violência no Brasil possui um importante viés de raça, estando a incidência de violência racista profundamente relacionada à violência sexista.

Posso apostar que aquelas estatísticas que mencionei logo no início do texto, relatada pelo policial da DEAM, são 100% de mulheres negras, entendendo inclusive que a localização da delegacia denuncia isso. Não tenho dúvidas que somos nós a grande ponta e todo o iceberg de vítimas nos casos de violência contra a mulher.

Isso porque, além de tudo, o fato de sermos mulher negra se traduz, significativamente, no exercício duplo da dominação masculina[1] onde agem em conjunto e embrincados os fatores gênero e raça.

Apesar da Lei Maria da Penha, que versa sobre a criminalização dos casos das várias violências contra as mulheres e a mais recente conquista, a inclusão do Feminicídio no código penal brasileiro, a gente sabe que zilhões de marcadores impedem que uma denúncia se concretize: desde as barreiras burocráticas, passando pela má vontade e falta de treinamento dos atores envolvidos no processo (policiais, agentes, delegados) até os medos, inseguranças e instabilidades na vida das mulheres negras.

Depois daquela denúncia e do meu depoimento no caso da minha amiga, fiquei pensando quantas mulheres não tem se quer a possibilidade de chegar na delegacia – seja por dinheiro de transporte, por medo ou por ameça do agressor. Refleti sobre quantas daquelas outras mulheres que estavam ali tinham “avançado” em seus casos, chegando até a medida protetiva que, dependendo da ação do agressor e do número de denúncias, demora meses ou até anos.

E tenho certeza que só o apoio de umas às outras, nossa luta e o empoderamento fará com que a violência contra a mulher deixe de ser tolerada e naturalizada.

 

REFERÊNCIAS:

[1] Mulheres negras vítimas de violência doméstica conjugal. Mirian Lúcia dos Santos. PUC São Paulo, 2011.

Mapa da Violência. A anatomia dos homicídios no Brasil. Julio Jacobo Waiselfisz, 2010.

Namorar não é isso

Quando eu comecei a me relacionar afetivamente [com meninos] eu devia ter mais ou menos 15 anos. Essa época em que a gente descobre que o amor da sua vida pode ser também o amor da vida de outra pessoa, ou mesmo que esse amor pode não ser correspondido e ainda assim continua sendo amor.

Bom, com 15 anos você ainda não se dá conta dos preconceitos nem dos fatos sociais minando decisões, relações individuais, e só depois [muito depois] você percebe os padrões se repetindo e aparecendo sempre como um anúncio em pop-up.

Na minha primeira paixão, o moço que era 3 anos mais velho que eu, fez questão que nem eu nem minhas amigas soubessem que ele tinha uma namorada. Sabendo ele que estava eu apaixonada, no segundo encontro ele teve a “necessidade” de garantir território e tentar uma relação sexual. Não rolou, eu já era mais safa do que imaginávamos [sim, eu não tinha me dado conta disso até outro dia] e logo meu “amor” esfriou. Ele, que era um moço branco, insistiu nisso algumas outras vezes, comigo sempre saindo à francesa, escapando da violência e pensando “Namorar é isso”.

Com o segundo rapaz, uma relação mais sólida, digamos assim. Apesar de entender que éramos infinitamente diferente nos objetivos [eu com 20 e ele 25], tínhamos um acordo bastante flexível: Ele tinha uma outra namorada com quem as relações sexuais eram permitidas, diferente de mim. Não sabia mesmo o que isso significava, nem quais eram as implicações noutras relações mais tarde, mas estava satisfeita. Havia dias definidos de nos encontrarmos, assim como havia com ela [só depois ele me disse que também a namorava] e um acordo sobre uma outra pessoa nessas relações: não haveria uma.

Com esse, não sofria tanto quanto o primeiro, mas ficava sempre uma dúvida pairando no ar sobre o que significava aquilo e de quanto de amor e carinho ele me dedicava, mas eu pensava comigo mesma: “Namorar é isso!”.

O terceiro relacionamento era um relacionamento “”””””aberto””””””. Sim, com muitas aspas, primeiro porque eu não o designava assim, muito menos sabia o que isso significava e depois porque era assim pra mim e não para o outro. Esse foi um dos relacionamentos que mais me doeu: sem saber bem o porquê, nosso encontro só acontecia nos horários das últimas aulas e ninguém, absolutamente ninguém podia saber que namorávamos. É claro que minhas amigas todas sabiam, mas nenhum amigo dele, ninguém da comunidade ou da escola podia imaginar que estávamos nos encontrando, por isso tudo era escondido.

Ele [branco], alegava que não era ainda a hora, que precisávamos amadurecer o relacionamento. E eu, enquanto isso, ia ficando com outros moços e acreditando que ele não namorava mais ninguém. Filávamos aula, ultrapassávamos o horário de ir pra casa, invadindo o turno da tarde mas não ousávamos ficar em festas, lanchonetes, reuniões de amigos. E eu pensava: “Namorar é isso!”.

Por fim, o relacionamento mais abusivo de todos: eu imaginava que estava sendo amada incondicionalmente. Um homem negro, lindo e inteiro cuidava de mim, estava sempre perto, bem perto. Até eu perceber que era perto demais. Num momento de transição bastante importante, que foi o ingresso na universidade e a descoberta da liberdade, o homem que eu amava começou a me sufocar.

No início, o que eram boas surpresas – como os aparecimentos repentinos no estágio – viraram ameaças, emboscadas e chantagens. Ligações no meio das aulas, insinuações de traição e argumentos que me colocavam sempre como culpada. Até que num acesso de ciúmes, ele brigou com alguém que passara e me olhara na rua e a violência chegou até minha família [que óbvio, me culpou pelo relacionamento]. E nesse fim eu pensei: “Namorar é isso, querida”.

Muito tempo depois, quando me tornei negra*, quando descobri-me senhora de mim, percebi que namorar nunca foi nada daquilo. Não era, não podia ser.

Somos nutridas ao longo da vida por ideias de que para ser feliz é preciso sofrer, de que relacionamentos precisam ter ciúmes e de que os modelos dos folhetins das 9 precisam ser replicados em nossas vidas, porque se não, não é verdade.

Dei-me conta de que preconceitos, racismos, violências e frustrações alheias minaram todos meus relacionamentos até então, e foram nomeados de amor e trouxeram mais sofrimento do que alegria. Percebi que nem eu nem ninguém merecia negar-se a si mesmo, em nome de uma gota de sentimentos, restos do tacho do amor que sobrou de outro alguém.

E isso não é a gente que faz. Não é culpa nossa. É aquela velha mania construída de se render a um “amor” como se não houvesse nenhum outro do qual sejamos dignas. Como se fosse a última oportunidade de ser amada e de que “se ele me aceitou, afinal, preciso somente corresponder às expectativas”.

Nós, mulheres negras, não precisamos de migalhas de amor. Precisamos nos negar a acreditar que qualquer coisa nos vale, qualquer coisa é melhor que estar só. Não, não é.

Como bem disse Bell Hooks no seu emocionante texto Vivendo de Amor:

Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor. (…) A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens.

 

Precisamos nos enxergar como mulheres amadas e capazes de nos amar em primeiro lugar e depois então, doarmos nosso amor a quem quer que seja [que escolhamos, claro]. Precisamos construir nosso afeto, nosso amor próprio, nossa solidariedade conosco e com as outras e assim vamos entender a liberdade que só o amor proporciona. E sem pena, sem rancor e sem desespero descobriremos que amar ou namorar não é nada daquilo que fizeram questão de nos mostrar.

Namorar pode ser mais. E será.

 

*referência ao texto de Sueli Carneiro Tornar-se Negra.

Mirian França, a polícia e o genocídio das mulheres negras

Nessa quarta-feira fariam 15 dias que Mirian França foi acusada e presa arbitrariamente sob suspeita de ter assassinado Gaia Molinari.

Mirian França, carioca e doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro estava de férias no Ceará, onde tinha planos de passar o Reveillon passeando pelas praias do Estado.

Gaia Molinari se hospedou no Hostel Refúgio, onde conheceu a farmacêutica, pesquisadora e doutora Mirian França. As duas conversaram e Mirian comentou que a mãe havia desistido de viajar para Jericoacoara e Gaia se ofereceu para acompanhar a carioca, já que as reservas estavam feitas para duas pessoas e a italiana não teria gastos extras com quartos.

Ao que se sabe, as duas não eram amigas de longa data. Apesar dos rumores levantados pela investigação policial de um relacionamento, amigos e parentes não confirmam tal versão:

“Mirian vinha programando essa viagem há tempos. Ela até me perguntou se eu conhecia as redondezas de Fortaleza, porque estava muito animada em conhecer as praias paradisíacas. Infelizmente, eu não pude ajudá-la porque desconhecia o território. Mas se eu soubesse que era um local violento, eu nunca indicaria visitas nesses locais.

Quando Mirian soube da morte de Gaia, ela procurou ser testemunha e por se contradizer passou a ser suspeita e foi imediatamente presa pela delegada Patrícia Bezerra. Acreditem, uma das contradições seria sobre quantas vezes Gaia tomou café da manhã”

Bruno Nunes, no seu perfil do Facebook.

 

Diferente dos outros acusados e suspeitos que foram levados a depor, Mirian França foi a única intimada a colaborar com a investigação e não saiu da delegacia, ficando presa por 14 dias, pois segundo a delegada do caso, suas declarações eram inconsistentes e contraditórias.

D. Valdicéia – mãe de Mirian -, as mulheres negras e todos os pertencentes aos grupos negros que se mobilizaram durante esses dias não tem dúvida: a prisão arbitrária de Mirian França é um caso explícito de racismo e demonstra como trabalha a polícia e a justiça nesse país. Está claro também que a morte de Gaia faz parte de uma prática que vem sido conhecida pelos cearenses nos últimos anos – o feminicídio – e que quase nunca termina em solução ou justiça para as vítimas, mas é óbvio que a prioridade não é somente esclarecer a população acerca dos crimes ou agir sistematicamente combatendo a violência contras as mulheres. A preocupação do Estado do Ceará é com a imagem passada aos turistas e futuros visitantes durante a alta temporada: segundo alguns comentários, a prisão de Mirian França fazia parte de uma dessas medidas emergenciais para demonstrar efetividade e ação do Estado.

haíssa_motta

Entendendo que essas práticas são sim sintomas de um sistema perverso, racista e machista, preciso mencionar outra mulher negra vítima das ações policiais: Haíssa Vargas Motta, carioca de 22 anos foi lembrada essa semana, depois da divulgação do vídeo da ação dos policiais que mostra o despreparo e a brutalidade da instituição mais racista do Brasil.

As imagens só confirmam o que a gente já sabe: eles atiram pra depois perguntar! Ferindo de morte uma jovem negra e junto com ela sua comunidade, sua família.

Haíssa não será esquecida, assim como Cláudia e tantas outras mulheres negras que são alvo da violência policial e viram para as grandes mídias estatística de corpos negros que sangram mediante ao genocídio da nossa população.

Não coincidentemente no último domingo presenciei a abordagem de policiais a duas mulheres negras no evento “Canto da Rua”, no Jardim dos Namorados, em Salvador. Terminado o show, depois de [claro!] abordar um grupo de jovens negros de maneira humilhante, um grupo de policiais identificados pela numeração 2004 abordou duas mulheres que haviam argumentando algo aos mesmos. A cena foi revoltante!

Os policiais – homens e agindo contra a lei, diga-se de passagem – imobilizaram uma das mulheres, colocando um dos braços dela para trás e a outra, vendo a ação, correu para socorrer a amiga, que em vão era jogada no chão. As duas se abraçaram, num ato solidário e de resistência, mas não adiantou. Os dois policiais continuaram a agressão e levaram as duas mulheres em direção a viatura. A multidão perplexa e paralisada nada fez a não ser conversar entre si sobre a atrocidade e recuar, quando novamente um bando de policiais voltara para inspecionar algo pelo chão.

Como bem nos alertou Jaqueline Gomes de Jesus:

É bastante apontado, pelos movimentos negros, o uso excessivo dos poderes de polícia no que tange à revista de homens negros (popularmente conhecida como “baculejo” ou “dar uma dura”), principalmente os jovens, mas, igualmente, as políticas de detenção e de custódia são envoltas em constantes dúvidas quanto a sua eficácia e adequação, quando aplicadas à população negra.

Mirian França recebeu ontem a liberação da prisão preventiva, depois de muita pressão social, de reuniões entre órgãos públicos, delegados, advogados e ativistas. Atos e mobilizações, petições , compartilhamentos e comentários de mais de 6 mil pessoas no evento do Facebook. Mas a marca do racismo ficará pra sempre em Mirian e em nós, mulheres negras. O medo de ser a próxima nos assombra e por isso permaneceremos atentas.

Haíssa viverá para sempre na memórias de nossas mulheres, sua família continuará clamando por justiça, assim com a família de Cláudia e a daquelas duas jovens que foram até o Jardim dos Namorados se divertir e acabaram no camburão de uma viatura.

Permaneceremos com os punhos em riste, continuaremos com essas mulheres negras nas nossas memórias e lutaremos sempre contra o fim dos autos de resistência, contra os baculejos e abordagens policiais ilegais e a favor da desmilitarização da polícia que é racista, machista, homolesbotransfóbica.

 

REFERÊNCIAS:

Mamapress – https://mamapress.wordpress.com/page/3/

Evento Facebook Libertem Mirian França –https://www.facebook.com/events/1541526549436470/?ref=ts&fref=ts

O Caso Haíssa Motta – http://www.geledes.org.br/nao-tem-perdao-diz-irma-de-jovem-morta-por-engano-por-pms/#axzz3Oc0ZtHOU

Blog Jaque Jesus – http://jaquejesus.blogspot.com.br/2015/01/o-caso-mirian-franca.html

 

Carta Aberta à “Nega do cabelo duro”

Semana passada surgiu um vídeo no youtube onde uma criança branca (muito provavelmente estimulada pelos pais) faz uma paródia, em tons de “humor” sobre ser negra do cabelo duro. Vocês vão dizer que é histeria, que foi mal entendido ou coisa que o valha, mas a verdade é que esse tipo de “brincadeira” tem uma origem racista e de conotação ofensiva. Para saber mais sobre, é só dar uma olhada no post das Blogueiras Negras sobre Blackface. Enfim, nosso repúdio e manifesto contra o incentivo de atitudes racistas nas crianças:

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Tania,

A primeira coisa a ser dita é que nada nos preparou para escrever essa carta. Mesmo assim, em nome de mães e pais negros e afrodescendentes, precisamos falar sobre um vídeo de sua responsabilidade postado no youtube. Estou falando de Sofia, Nega do Cabelo Duro, em que uma criança com o rosto pintado de negro interpreta essa famosa marchinha que há muito tempo sabemos ser racista.

Acreditamos que a pequena Sofia seja próxima a você, talvez sua filha, sobrinha. Ela aparece gesticulando e fazendo caretas, contrariada enquanto usa vários pentes. Seu cabelo é apresentado como complicado, “difícil”, “duro”. Enfim, não “desmancha nem na areia”. Somente o maior dos pentes, o amarelo, consegue resolver o “problema”. É o “pente que te penteia”.

Imagino também que você, como muitas pessoas, dirá que foi uma “divertida” e “inocente” “homenagem”. Que o objetivo dessa “brincadeira” não foi ofender mulheres (e meninas) negras e afrodescendentes. Só que foi justamente esse o efeito de seu vídeo, e por isso decidimos escrever, para que o preconceito contra nossa pele e nosso cabelo acabe.

Desde a colonização deste país, a pessoa negra é tratada como uma “raça à parte”, como se não fosse incluída na humanidade, como se nossa aparência não fosse “correta”. Como se o “normal” e desejável fosse ser branco, de cabelos lisos. Como muitas pessoas pensaram assim ao longo dos séculos e ainda pensam, o racismo ainda contamina profundamente a maneira como somos mostrados na televisão, nas revistas e também na internet.

A ideia de que ser branco é ser bonito faz com que milhões de mulheres pretas comprem produtos de alisamento e relaxamento para que seus cabelos percam volume, para que se sintam mais “aceitáveis” dentro de um padrão eurocêntrico racista. Assim como ensinou Sofia, nós também somos ensinadas que nossos cabelos são “ruins”, “difíceis de cuidar”. Que não são bonitos e nem práticos. Isso nos destrói por dentro desde muito cedo.

É assim que a autoestima de crianças, adolescentes e mulheres negras é destruída. É assim que, ao invés amar quem somos e nossas origens, aprendemos a odiar nossos corpos, nossos cabelos. É por isso que muitas de nós tentam se parecer com aquilo que o racismo diz que é correto, que é ser limpo, que é ter uma aparência profissional. É por isso que muitas mães alisam os cabelos de suas filhas tão cedo.

Só que, ao longo dos anos, homens e mulheres pretas vem se unindo para lutar contra o racismo. Trabalhamos o conceito de amor e de manutenção de nossas características individuais, que são lindas. Não somente entre nós, como também em nossos filhos, pois percebemos que é muito importante que o nosso povo não aceite tamanha opressão. Que acredite que a cor da nossa pele e a textura dos nosso cabelos não pode interferir na maneira como as pessoas nos enxergam.

Talvez você não saiba, mas pintar o rosto para fazer imitações de pessoas negras é racismo. É divertido para muita gente, mas não para todo mundo. É um tipo de humor que tem aparecido com muita frequência na televisão, infelizmente. Um dos maiores exemplo disso é a Dona Adelaide do Zorra Total. O nome desse tipo de piada em português é Cara preta (Black Face). Aqui você pode ler um ótimo artigo sobre o assunto, explicando com detalhes porque são terríveis.

É o tipo de piada que faz as pessoas pensarem que nós, negros, não somos bonitos, educados e honestos. Que nós, mulheres negras, não temos dentes, que nossos cabelos são feios. É o tipo de piada que ensina às crianças que pessoas negras são fedidas, feias, desagradáveis. Que não é muito bom ter amigos negros. Infelzimente, é quase sempre assim que nós, mulheres negras, aparecemos na televisão.

São essas pequenas grandes piadas que fazem com que as pessoas se esqueçam que nós somos humanos tanto quanto pessoas brancas. E quando as pessoas se esquecem que nós somos humanos, elas se acostumam com o racismo. O racismo, por sua vez, faz com que as pessoas achem normal que nossos jovens morram cedo, que nossas crianças não tenham educação de boa qualidade.

Precisamos dizer com toda sinceridade que estamos acostumadas com esse tipo de piada. Mas seu vídeo é o único que vi até hoje onde uma criança, que provavelmente não tem a menor ideia do que tudo isso significa, faz esse tipo de coisa. Por causa disso, não somos apenas nós, mulheres adultas, que somos motivo de riso. São nossas crianças, nossas filhas.

Falaremos em nome de todas as mães negras e afrodescendentes cujas filhas, infelizmente, serão chamadas de negas do cabelo duro várias vezes ao longo da vida. Certamente um “elogio” que nenhuma mãe gostaria de ouvir. Nós podemos, como mães e pais, combater esse racismo. Mas você também pode Tania, ensinando que esse tipo de brincadeira nunca deveria ser repetida.

Não conseguimos entender até agora que mensagem você tentou passar pra Sofia. Afinal de contas, está claro que a pequena é branca apenas pros padrões brasileiros, porque todo brasileiro se acha MUITO branco, né? Mas na verdade, sabemos que o motivo de seu cabelo ser cacheado é justamente o sangue africano correndo em suas veias, o que faz com que ela seja afrodescendente.

Sinceramente? Seu vídeo é de extremo mau gosto. Estimula crianças a desrespeitarem quem são. Afinal, por que ensinar uma criança a pintar seu rosto de preto, que “cabelo duro” é “coisa de preto”? Por que ensinar uma criança a ser racista? Por que não ensinar que todos os seres humanos nascem diferentes e que justamente por isso somos maravilhosos? Que devemos amar e respeitar quem é diferente de nós, por que é assim que seremos respeitados?

Estamos numa era de transformação, na qual todos os seres humanos se encaixam e devem ser respeitados. Uma época em que todos devemos nos amar como somos, com o cabelo que temos. Ensinar o contrário põe a perder o trabalho de séculos de luta para que seja quebrado de uma vez por todas este estigma de que pessoas negras são “feias”, tem o cabelo “duro”.

Pedimos, por favor, que repense sua atitude com relação a toda a população preta, mas principalmente com uma criança “branca” que está em formação. O racismo, desde o início dos tempos, é coisa ensinada e assim segue seu fluxo. Crianças aprendem em casa e reproduzem na escola o ódio ao preto, traduzido em “brincadeira de criança” para quem pratica, mas uma quebra da autoestima pra quem sofre.

Hoje, Sofia é apenas uma criança, mas um dia vai crescer e entender. Espero que até lá esse episódio triste seja superado. Que ela tenha a oportunidade de viver num Brasil sem racismo e preconceitos de todo o tipo. É o que desejamos para ela, de coração. Porque assim, desejamos para nós mesmas e para todas as nossas crianças negras e afrodescendentes. Agora e no futuro.

Assinam,

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Meu pé na cozinha: quem faz o trabalho grosso?

Acho que não é novidade pra ninguém que muitos dos países nesse mundo se utilizaram de mão de obra negra pra construírem suas riquezas, seus alicerces.

Também não é novidade encontrarmos pretos e pretas nos trabalhos dos mais variados, trabalhos esses na maioria das vezes de grande esforço ou subempregos. Mas o que há de surpresa no meu texto, meu caro? A novidade é que eu ontem percebi alguma mudança. Ontem eu vi muita coisa que permanece, mas vi também muita coisa diferente.

Ontem eu trabalhei numa recepção, num evento muito lindo em Olinda, para professores da rede municipal. Cheguei e fui direto procurar a dona da recepção – que me tratou muito bem e me mandou direto pra cozinha. E foi lá que eu me vi, vi minha vó e minha mãe! Era uma preta quem cozinhava perto de um fogão gigante e uma panela sem fim, enquanto uma outra cortava cebolas e elogiava meu cabelo.

Durante a recepção, com os seguranças que são meus amigos (aliás, um beijo especial pra Hugo Isidoro) ia olhando cada professor e cada expressão: muitas mulheres pretas, diretoras, coordenadoras, professoras que me sorriam com uma simpatia sem fim. Apesar de estar trabalhando, me divertir e fiquei exponencialmente feliz pois a diferença das cenas me agradava.

Pensei durante a noite toda sobre os dois lados da mesma moeda: o trabalho grosso quem faz somos nós! Os dois dão dignidade, os dois requerem grandes esforços, os dois foram e são muito bem feitos. Nós construímos desde a sala até a cozinha, e aqui eu esvazio essa expressão de “pé na cozinha” porque a considero que saindo de mim, nada tem de racista, muito pelo contrário.

Tenho muito orgulho de ter nos visto ali, mulheres pretas: da cozinha até a sala de aula

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Uma homenagem a D. Carmelita Paula da Cruz.