O dobro da perfeição e a metade do salário

Ou sobre ser impecável e não ter reconhecimento

Isso pode ser sobre mim, mas tenho certeza que alguma preta vai passar mais da metade desse texto balançando a cabeça em afirmativa ou mesmo chorando lembrando de como foi ter que chorar escondido no banheiro do seu antigo trabalho. 

É sobre trabalho. Sobre exploração. Sobre se aperfeiçoar, ser perfeita e fazer tudo pra não errar, mas quando errar ser demitida.

Sim, eu guardei toda minha angústia, decepção e tristeza por quase um ano e ruminei tudo desde então. O bolo de incompetência junto com o suco gástrico da ansiedade por não saber como sobreviver ao próximo mês ficaram presos na garganta durante todo esse tempo e agora seguem vomitados aqui, escorrendo pelos meus dedos.

Sempre amei o que faço e por isso mesmo sempre me dediquei a cada job – ah sim, sou publicitária – pesquisando, escrevendo, lendo, discutindo. A cada nova descoberta, uma reunião, um insight com os colegas de trabalho e o objetivo sendo sempre aperfeiçoar, melhorar minha prática como atendimento, meu relacionamento com as pessoas e com meu próprio trabalho: vender ideias (aff, clichezão). Pois bem, sempre notei que permanecia mais depois do expediente, lia mais, explicava mais no email ou fazia mais reuniões. Mas o elogio nunca chegou. O aumento no salário então, pior ainda.

E durante um grande período de análise, comecei a notar que os medíocres, os meeiros, as pessoas menos “”esforçadas”” eram as que estavam ali desde sempre. Nunca demitidas, mas também nunca inovadoras – talvez não seja essa a palavra – nunca “criativas”. Nenhum esforço pela perfeição, apenas o velho e bom “faz assim mesmo que o cliente gosta”.

Vou citar a pesquisadora Giovana Xavier no seu texto “Passados Presentes que habitam o Quarto de Empregada”, ela diz:

“Todas as estatísticas do IBGE relacionadas a renda per capita, a moradia, trabalho, saúde e demais indicadores sociais comprovam que desigualdades de classe são construídas de forma articulada com desigualdades de gênero e raça”

Se continuarmos fazendo esse recorte, lembrarei que apesar de alguns lugares onde trabalhei fazerem parecer existir uma diversidade até interessante nos seus quadros de funcionários, as mulheres e negros das equipes (seja de criação, atendimento ou produção) continuavam ganhando a mesma coisa por anos. E ganhando menos em relação a homens e brancos. E essa não é uma realidade exclusiva daqueles lugares. Basta perguntar pro seu colega (homem) que faz o mesmo que você o quanto ele ganha, preta.

Agora lembra o quanto você trabalha. Lembra o quanto de hora extra fizeste.

Um tapinha nas costas não paga o aluguel!

Dia desses surgiu nos grupos de whatsapp e outras redes, o blog Vamos falar sobre agencias que conta com os depoimentos anônimos de pessoas que trabalham nas diversas agências espalhadas pelo Brasil. Nem preciso dizer a quantidade de depoimento sobre estrelismo, arrogância e baixos salários não é? Imagina se a gente faz essa curadoria, organiza uns gráficos e espalha por ai…

Ouvir da sua funcionária que “promoção e salário justo somente para os homens, amigos dos chefes e ganhadores de cannes” deveria ser constrangedor né? Ainda mais numa agência que costuma brilhar nos festivais da vida, mas nem é. Nada de novo sob o sol.

Queria saber mesmo o que é que falta pra isso mudar. Porque não dá mais pra ver gente branca medíocre subindo nos degraus da grana sem nem se preocupar em dar o seu melhor – nem a METADE do seu melhor. Ou vai dizer que aquele cara que é tido como o fodão do trampo também não é o que mais chega tarde? Ou o que passa mais da metade das horas sem produzir. Meritocracia já! (ironic).

Entender como é possível um empregado cometer assédio e continuar trabalhando no mesmo lugar por ANOS. Alguns vão dizer que é segunda chance, eu chamaria de machismo e perpetuação de cultura do estupro – afinal, ele estava bêbado e não respondia pelos seus atos; um homem casado e de boa índole (cof cof) – e fim de papo.

Reconhecer que essa estrutura está falida e começar a olhar para o trabalho das mulheres, seja qual for o setor é imprescindível pra que a diversidade no seu ambiente de trabalho seja promovida de fato. Afinal, desacreditar ideias, negar espaços de conversa e podar a autonomia das mulheres é o clássico dos chefes criativos – sejam eles diretores de arte ou de atendimento. Mais fácil dar o braço a torcer quando aquele funcionário querido – e homem – fala (usando inclusive os argumentos e insights desenvolvidos por outrA).

É perceber que existe uma divisão sexual do trabalho e combatê-la:

“O patriarcado divide o trabalho entre homens e mulheres. Nessa separação, convencionou-se que existe trabalho de homem e trabalho de mulher. Nós, mulheres, ficamos com as atividades menos valorizadas e que recebem os menores salários. O racismo também divide o mundo do trabalho. No caso do Brasil, entre pessoas negras e brancas, onde as pessoas negras estão em grande desigualdade” (Mulheres, trabalho e autonomia: conhecendo os nossos direitos. organizado por Fernanda Meira. SOS Corpo Publicações)

Eu fiquei literalmente cansada. De calcular os minutos pra que tudo saia direito e incrível, sem erro, com o dobro de perfeição e continuar tendo que fazer isso a vida toda pra conseguir ter uma folga no dinheiro e comprar um ketchup. NÃO AGUENTO MAIS! Ser ignorada nas reuniões decisivas, ser achincalhada quando dava ideia de “por uma preta na campanha”, não ser respeitada por cobrar o job que tá atrasado ou ainda ser violentamente desrespeitada quando o criativo premiado te chama de incompetente, alegando não ser isso o que um atendimento faz. E isso é só um pedacinho da história. Essa sou só eu!

O silêncio não me protegeu. Demitida e enxergando altos lances injustos bem depois, resolvi dizer pra mim mesma e pra você que já cansou de balançar a cabeça até aqui: não quero mais ser escravizada. Não vai rolar trabalhar para um sonho que não é meu. Chega de pedir licença pra sentar no sofá, não vai rolar mais perguntar se eu posso folgar na quinta antes do meu aniversário. Parei de tocar pra ver os outros dançar.

A partir de hoje vai ser do meu jeito, com minhas habilidades com a minha (pouca ou nenhuma) perfeição, mas vai ser comigo mesmo. Sem precisar ir chorar no meu banheiro!

Não, não vou abrir minha própria agência, nem gerenciar outras pessoas, mas pretendo encarar meus sonhos e minhas vontades longe desses ambientes loucos e misóginos e racistas das agências. Cansei e se você ainda não cansou, reflita como anda sua vida nesse trampo “bacana”. Não aceite mais virar a noite só porque tem pizza no final, porque no final mesmo, ninguém nem lembra que você fez parte da equipe por mais de 5 anos e te confunde com o pedreiro da obra no corredor ou com a menina da limpeza 😉

No próximo texto talvez eu conte uma outra história mais feliz, ou menos. Mas pelo menos não demorará tanto, não será interrompida por “medo do mercado” ou muito menos porque não me pagaram direito. Eu mesma me pago, assim esperamos e tentaremos – eu e o aluguel do mês que vem.

 

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Desconstruindo o feminismo: qual feminismo?

Ultimamente temos ouvido bastante essa palavra de quatro sílabas, soprada aos quatro ventos dos recônditos portais independentes de conteúdo até os grandes programas de tv das imensas corporações.

O que pouco se sabe é que essa corrente de pensamento, ideologia ou como queiram chamar ganhou esse nome a partir da luta das mulheres sufragistas estadunidenses, que tinham como reivindicação seu direito ao voto.

Mas bem antes disso, outras mulheres em outros lugares já demonstravam atitudes que podemos nomenclaturar como atitudes feministas.

Quando Sojourner Truth, mulher negra nascida em Nova Iorque, proferiu o discurso “Ain’t I a woman?” em 1851, era feminismo que ela fazia, sem ter esse nome. Quando as mulheres negras na diáspora, nos diversos países, se reuniram em quilombos, pallenques e organizaram entre si as comunidades independentes e autogestionadas, era feminismo o que elas faziam.

Hoje, as ialodês e mulheres nos centros comunitários, as domésticas organizadas, as mulheres trans negras e as catadoras de papel, todas são feministas na prática, sem de fato ter esse nome.

Estamos então falando de um feminismo que é construído no dia a dia, que tem correndo na sua veia o recorte de raça e classe, inevitavelmente.

Uma prática feminista que sem dúvida não pode negar as intersecções de ser mulher, negra e pobre. E que, por mais anti capitalista e anti racista você seja, jamais saberá o que é lidar com esses marcadores entrelaçados, todos os dias.

A opressão de mulheres não reconhece nenhuma fronteira, étnica ou racial, é verdade, mas isso não significa que ela é idêntica dentro destas diferenças.

Assim, os feminismos precisam ser práticas que considerem, reconsiderem, construam e desconstruam as especificidades das diversas mulheres, fazendo a intersecção entre as pautas e essa especificidades.

Como afirmou Nênis Vieira, no texto O Feminismo Negro é, principalmente, periférico

“As mulheres periféricas são quase que automaticamente feministas, nas suas trilpas, quintuplas jornadas.”

E desconstruir os feminismos significa abrir os olhos e as mentes para as outras manifestações de feminismo que não estão emolduradas em teses e teorias. Que estão na frente, reivindicando os tantos outros direitos das mulheres: à moradia, à saúde pública de qualidade, à condições de trabalho humanas e que estão para conjugar com o que lhes é legítimo e justo.

Porque é também dos feminismos a liberdade de escolha para as mulheres, e quando todas nós a tivermos, estaremos finalmente vislumbrando nossa igualdade.

 

Referência: Citação de Audre Lorde, em Carta a Mary Daly. Maio de 1979

Imagem: Mãe Olga de Alaketu

Mirian França, a polícia e o genocídio das mulheres negras

Nessa quarta-feira fariam 15 dias que Mirian França foi acusada e presa arbitrariamente sob suspeita de ter assassinado Gaia Molinari.

Mirian França, carioca e doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro estava de férias no Ceará, onde tinha planos de passar o Reveillon passeando pelas praias do Estado.

Gaia Molinari se hospedou no Hostel Refúgio, onde conheceu a farmacêutica, pesquisadora e doutora Mirian França. As duas conversaram e Mirian comentou que a mãe havia desistido de viajar para Jericoacoara e Gaia se ofereceu para acompanhar a carioca, já que as reservas estavam feitas para duas pessoas e a italiana não teria gastos extras com quartos.

Ao que se sabe, as duas não eram amigas de longa data. Apesar dos rumores levantados pela investigação policial de um relacionamento, amigos e parentes não confirmam tal versão:

“Mirian vinha programando essa viagem há tempos. Ela até me perguntou se eu conhecia as redondezas de Fortaleza, porque estava muito animada em conhecer as praias paradisíacas. Infelizmente, eu não pude ajudá-la porque desconhecia o território. Mas se eu soubesse que era um local violento, eu nunca indicaria visitas nesses locais.

Quando Mirian soube da morte de Gaia, ela procurou ser testemunha e por se contradizer passou a ser suspeita e foi imediatamente presa pela delegada Patrícia Bezerra. Acreditem, uma das contradições seria sobre quantas vezes Gaia tomou café da manhã”

Bruno Nunes, no seu perfil do Facebook.

 

Diferente dos outros acusados e suspeitos que foram levados a depor, Mirian França foi a única intimada a colaborar com a investigação e não saiu da delegacia, ficando presa por 14 dias, pois segundo a delegada do caso, suas declarações eram inconsistentes e contraditórias.

D. Valdicéia – mãe de Mirian -, as mulheres negras e todos os pertencentes aos grupos negros que se mobilizaram durante esses dias não tem dúvida: a prisão arbitrária de Mirian França é um caso explícito de racismo e demonstra como trabalha a polícia e a justiça nesse país. Está claro também que a morte de Gaia faz parte de uma prática que vem sido conhecida pelos cearenses nos últimos anos – o feminicídio – e que quase nunca termina em solução ou justiça para as vítimas, mas é óbvio que a prioridade não é somente esclarecer a população acerca dos crimes ou agir sistematicamente combatendo a violência contras as mulheres. A preocupação do Estado do Ceará é com a imagem passada aos turistas e futuros visitantes durante a alta temporada: segundo alguns comentários, a prisão de Mirian França fazia parte de uma dessas medidas emergenciais para demonstrar efetividade e ação do Estado.

haíssa_motta

Entendendo que essas práticas são sim sintomas de um sistema perverso, racista e machista, preciso mencionar outra mulher negra vítima das ações policiais: Haíssa Vargas Motta, carioca de 22 anos foi lembrada essa semana, depois da divulgação do vídeo da ação dos policiais que mostra o despreparo e a brutalidade da instituição mais racista do Brasil.

As imagens só confirmam o que a gente já sabe: eles atiram pra depois perguntar! Ferindo de morte uma jovem negra e junto com ela sua comunidade, sua família.

Haíssa não será esquecida, assim como Cláudia e tantas outras mulheres negras que são alvo da violência policial e viram para as grandes mídias estatística de corpos negros que sangram mediante ao genocídio da nossa população.

Não coincidentemente no último domingo presenciei a abordagem de policiais a duas mulheres negras no evento “Canto da Rua”, no Jardim dos Namorados, em Salvador. Terminado o show, depois de [claro!] abordar um grupo de jovens negros de maneira humilhante, um grupo de policiais identificados pela numeração 2004 abordou duas mulheres que haviam argumentando algo aos mesmos. A cena foi revoltante!

Os policiais – homens e agindo contra a lei, diga-se de passagem – imobilizaram uma das mulheres, colocando um dos braços dela para trás e a outra, vendo a ação, correu para socorrer a amiga, que em vão era jogada no chão. As duas se abraçaram, num ato solidário e de resistência, mas não adiantou. Os dois policiais continuaram a agressão e levaram as duas mulheres em direção a viatura. A multidão perplexa e paralisada nada fez a não ser conversar entre si sobre a atrocidade e recuar, quando novamente um bando de policiais voltara para inspecionar algo pelo chão.

Como bem nos alertou Jaqueline Gomes de Jesus:

É bastante apontado, pelos movimentos negros, o uso excessivo dos poderes de polícia no que tange à revista de homens negros (popularmente conhecida como “baculejo” ou “dar uma dura”), principalmente os jovens, mas, igualmente, as políticas de detenção e de custódia são envoltas em constantes dúvidas quanto a sua eficácia e adequação, quando aplicadas à população negra.

Mirian França recebeu ontem a liberação da prisão preventiva, depois de muita pressão social, de reuniões entre órgãos públicos, delegados, advogados e ativistas. Atos e mobilizações, petições , compartilhamentos e comentários de mais de 6 mil pessoas no evento do Facebook. Mas a marca do racismo ficará pra sempre em Mirian e em nós, mulheres negras. O medo de ser a próxima nos assombra e por isso permaneceremos atentas.

Haíssa viverá para sempre na memórias de nossas mulheres, sua família continuará clamando por justiça, assim com a família de Cláudia e a daquelas duas jovens que foram até o Jardim dos Namorados se divertir e acabaram no camburão de uma viatura.

Permaneceremos com os punhos em riste, continuaremos com essas mulheres negras nas nossas memórias e lutaremos sempre contra o fim dos autos de resistência, contra os baculejos e abordagens policiais ilegais e a favor da desmilitarização da polícia que é racista, machista, homolesbotransfóbica.

 

REFERÊNCIAS:

Mamapress – https://mamapress.wordpress.com/page/3/

Evento Facebook Libertem Mirian França –https://www.facebook.com/events/1541526549436470/?ref=ts&fref=ts

O Caso Haíssa Motta – http://www.geledes.org.br/nao-tem-perdao-diz-irma-de-jovem-morta-por-engano-por-pms/#axzz3Oc0ZtHOU

Blog Jaque Jesus – http://jaquejesus.blogspot.com.br/2015/01/o-caso-mirian-franca.html

 

Carta Aberta à “Nega do cabelo duro”

Semana passada surgiu um vídeo no youtube onde uma criança branca (muito provavelmente estimulada pelos pais) faz uma paródia, em tons de “humor” sobre ser negra do cabelo duro. Vocês vão dizer que é histeria, que foi mal entendido ou coisa que o valha, mas a verdade é que esse tipo de “brincadeira” tem uma origem racista e de conotação ofensiva. Para saber mais sobre, é só dar uma olhada no post das Blogueiras Negras sobre Blackface. Enfim, nosso repúdio e manifesto contra o incentivo de atitudes racistas nas crianças:

blogagem_coletiva

Tania,

A primeira coisa a ser dita é que nada nos preparou para escrever essa carta. Mesmo assim, em nome de mães e pais negros e afrodescendentes, precisamos falar sobre um vídeo de sua responsabilidade postado no youtube. Estou falando de Sofia, Nega do Cabelo Duro, em que uma criança com o rosto pintado de negro interpreta essa famosa marchinha que há muito tempo sabemos ser racista.

Acreditamos que a pequena Sofia seja próxima a você, talvez sua filha, sobrinha. Ela aparece gesticulando e fazendo caretas, contrariada enquanto usa vários pentes. Seu cabelo é apresentado como complicado, “difícil”, “duro”. Enfim, não “desmancha nem na areia”. Somente o maior dos pentes, o amarelo, consegue resolver o “problema”. É o “pente que te penteia”.

Imagino também que você, como muitas pessoas, dirá que foi uma “divertida” e “inocente” “homenagem”. Que o objetivo dessa “brincadeira” não foi ofender mulheres (e meninas) negras e afrodescendentes. Só que foi justamente esse o efeito de seu vídeo, e por isso decidimos escrever, para que o preconceito contra nossa pele e nosso cabelo acabe.

Desde a colonização deste país, a pessoa negra é tratada como uma “raça à parte”, como se não fosse incluída na humanidade, como se nossa aparência não fosse “correta”. Como se o “normal” e desejável fosse ser branco, de cabelos lisos. Como muitas pessoas pensaram assim ao longo dos séculos e ainda pensam, o racismo ainda contamina profundamente a maneira como somos mostrados na televisão, nas revistas e também na internet.

A ideia de que ser branco é ser bonito faz com que milhões de mulheres pretas comprem produtos de alisamento e relaxamento para que seus cabelos percam volume, para que se sintam mais “aceitáveis” dentro de um padrão eurocêntrico racista. Assim como ensinou Sofia, nós também somos ensinadas que nossos cabelos são “ruins”, “difíceis de cuidar”. Que não são bonitos e nem práticos. Isso nos destrói por dentro desde muito cedo.

É assim que a autoestima de crianças, adolescentes e mulheres negras é destruída. É assim que, ao invés amar quem somos e nossas origens, aprendemos a odiar nossos corpos, nossos cabelos. É por isso que muitas de nós tentam se parecer com aquilo que o racismo diz que é correto, que é ser limpo, que é ter uma aparência profissional. É por isso que muitas mães alisam os cabelos de suas filhas tão cedo.

Só que, ao longo dos anos, homens e mulheres pretas vem se unindo para lutar contra o racismo. Trabalhamos o conceito de amor e de manutenção de nossas características individuais, que são lindas. Não somente entre nós, como também em nossos filhos, pois percebemos que é muito importante que o nosso povo não aceite tamanha opressão. Que acredite que a cor da nossa pele e a textura dos nosso cabelos não pode interferir na maneira como as pessoas nos enxergam.

Talvez você não saiba, mas pintar o rosto para fazer imitações de pessoas negras é racismo. É divertido para muita gente, mas não para todo mundo. É um tipo de humor que tem aparecido com muita frequência na televisão, infelizmente. Um dos maiores exemplo disso é a Dona Adelaide do Zorra Total. O nome desse tipo de piada em português é Cara preta (Black Face). Aqui você pode ler um ótimo artigo sobre o assunto, explicando com detalhes porque são terríveis.

É o tipo de piada que faz as pessoas pensarem que nós, negros, não somos bonitos, educados e honestos. Que nós, mulheres negras, não temos dentes, que nossos cabelos são feios. É o tipo de piada que ensina às crianças que pessoas negras são fedidas, feias, desagradáveis. Que não é muito bom ter amigos negros. Infelzimente, é quase sempre assim que nós, mulheres negras, aparecemos na televisão.

São essas pequenas grandes piadas que fazem com que as pessoas se esqueçam que nós somos humanos tanto quanto pessoas brancas. E quando as pessoas se esquecem que nós somos humanos, elas se acostumam com o racismo. O racismo, por sua vez, faz com que as pessoas achem normal que nossos jovens morram cedo, que nossas crianças não tenham educação de boa qualidade.

Precisamos dizer com toda sinceridade que estamos acostumadas com esse tipo de piada. Mas seu vídeo é o único que vi até hoje onde uma criança, que provavelmente não tem a menor ideia do que tudo isso significa, faz esse tipo de coisa. Por causa disso, não somos apenas nós, mulheres adultas, que somos motivo de riso. São nossas crianças, nossas filhas.

Falaremos em nome de todas as mães negras e afrodescendentes cujas filhas, infelizmente, serão chamadas de negas do cabelo duro várias vezes ao longo da vida. Certamente um “elogio” que nenhuma mãe gostaria de ouvir. Nós podemos, como mães e pais, combater esse racismo. Mas você também pode Tania, ensinando que esse tipo de brincadeira nunca deveria ser repetida.

Não conseguimos entender até agora que mensagem você tentou passar pra Sofia. Afinal de contas, está claro que a pequena é branca apenas pros padrões brasileiros, porque todo brasileiro se acha MUITO branco, né? Mas na verdade, sabemos que o motivo de seu cabelo ser cacheado é justamente o sangue africano correndo em suas veias, o que faz com que ela seja afrodescendente.

Sinceramente? Seu vídeo é de extremo mau gosto. Estimula crianças a desrespeitarem quem são. Afinal, por que ensinar uma criança a pintar seu rosto de preto, que “cabelo duro” é “coisa de preto”? Por que ensinar uma criança a ser racista? Por que não ensinar que todos os seres humanos nascem diferentes e que justamente por isso somos maravilhosos? Que devemos amar e respeitar quem é diferente de nós, por que é assim que seremos respeitados?

Estamos numa era de transformação, na qual todos os seres humanos se encaixam e devem ser respeitados. Uma época em que todos devemos nos amar como somos, com o cabelo que temos. Ensinar o contrário põe a perder o trabalho de séculos de luta para que seja quebrado de uma vez por todas este estigma de que pessoas negras são “feias”, tem o cabelo “duro”.

Pedimos, por favor, que repense sua atitude com relação a toda a população preta, mas principalmente com uma criança “branca” que está em formação. O racismo, desde o início dos tempos, é coisa ensinada e assim segue seu fluxo. Crianças aprendem em casa e reproduzem na escola o ódio ao preto, traduzido em “brincadeira de criança” para quem pratica, mas uma quebra da autoestima pra quem sofre.

Hoje, Sofia é apenas uma criança, mas um dia vai crescer e entender. Espero que até lá esse episódio triste seja superado. Que ela tenha a oportunidade de viver num Brasil sem racismo e preconceitos de todo o tipo. É o que desejamos para ela, de coração. Porque assim, desejamos para nós mesmas e para todas as nossas crianças negras e afrodescendentes. Agora e no futuro.

Assinam,

Blogueiras Negras
Preta& Gorda
Meninas Black Power
Noivas Crespas
Ong Estimativa
COFEMLiHS
LiHS SP
Blogueiras Feministas
Marcha das Vadias Curitiba
Nós denunciamos
FemMaterna
Entre Luma e Frida
Mabia Barros
A mulher negra e o feminismo
Afrodelia 
Fatima Tardelli
Zaíra Mau Humor Pires
Talita Dias
Crespos&Cacheados Assumidos
Feministas do Cariri
FQC – Feminismo Que Cola
Blogagem Coletiva Mulher Negra

Preta Flor

Meu pé na cozinha: quem faz o trabalho grosso?

Acho que não é novidade pra ninguém que muitos dos países nesse mundo se utilizaram de mão de obra negra pra construírem suas riquezas, seus alicerces.

Também não é novidade encontrarmos pretos e pretas nos trabalhos dos mais variados, trabalhos esses na maioria das vezes de grande esforço ou subempregos. Mas o que há de surpresa no meu texto, meu caro? A novidade é que eu ontem percebi alguma mudança. Ontem eu vi muita coisa que permanece, mas vi também muita coisa diferente.

Ontem eu trabalhei numa recepção, num evento muito lindo em Olinda, para professores da rede municipal. Cheguei e fui direto procurar a dona da recepção – que me tratou muito bem e me mandou direto pra cozinha. E foi lá que eu me vi, vi minha vó e minha mãe! Era uma preta quem cozinhava perto de um fogão gigante e uma panela sem fim, enquanto uma outra cortava cebolas e elogiava meu cabelo.

Durante a recepção, com os seguranças que são meus amigos (aliás, um beijo especial pra Hugo Isidoro) ia olhando cada professor e cada expressão: muitas mulheres pretas, diretoras, coordenadoras, professoras que me sorriam com uma simpatia sem fim. Apesar de estar trabalhando, me divertir e fiquei exponencialmente feliz pois a diferença das cenas me agradava.

Pensei durante a noite toda sobre os dois lados da mesma moeda: o trabalho grosso quem faz somos nós! Os dois dão dignidade, os dois requerem grandes esforços, os dois foram e são muito bem feitos. Nós construímos desde a sala até a cozinha, e aqui eu esvazio essa expressão de “pé na cozinha” porque a considero que saindo de mim, nada tem de racista, muito pelo contrário.

Tenho muito orgulho de ter nos visto ali, mulheres pretas: da cozinha até a sala de aula

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Uma homenagem a D. Carmelita Paula da Cruz.

Marcha das Vadias – E eu com isso?

Macha das Vadias – Recife

Esse fim de semana aconteceu a Marcha das Vadias em 13 capitais. Recife levou pras ruas mais de 2.000 vadias numa celebração triste, como disse Késia. Eu fiquei orgulhosa de todas as mulheres e especial de duas delas: uma foi Nancy, que marchou do nosso lado e disse palavras incríveis sobre a luta na Associação de Profissionais do Sexo. Nancy é uma preta forte, mulher incrível e de fibra, que organiza também a Parada da Diversidade em Recife. A outra eu peço perdão porque não vou lembrar como se chama, mas falou em nome das mulheres negras, dos coletivos LGBT’s e dos estudantes. Ela sensibilizou e mostrou que a Marcha, que o feminismo precisa estar atento as demandas dessas mulheres e homens – ela me representou.

Percebi com elas que precisamos ocupar os nossos espaços, precisamos falar, escrever cartazes com nossas demandas, debater sobre liberdade e empoderamento sob nossa ótica, sempre incluindo as que são nossas companheiras de luta. Falar que o feminismo precisa ser interseccional e atender as demandas da mulher negra, mulher trans* é bom, mas a ação precisa tomar o lugar da fala. A gente precisa aparecer!

Vi muitas de nós presentes, vi poucos cartazes que fizessem referência a nós, mas senti que estávamos ali também. Juntas pautando a nossa luta, nossos direitos e nossa liberdade. Porque, afinal, a liberdade virá para todas.

A escravidão: 3 séculos de ação

Na semana da abolição, temos (eu e alguns blogueiros) tentado resgatar o que aconteceu naquele Brasil de oitocentos, muito além do fato de Isabel ter assinado a lei de duas linhas.

Pensando que comemoramos e relembramos os 125 anos de abolição, esquecemos de fazer uma conta bem básica, vamos a ela: O Brasil foi descoberto em 1500, em 1530 chegaram os primeiros africanos – o mais antigo registro fala de uma remessa de 17 “peças” para o então capitão-mor Pedro Góis pra sua capitania de São Tomé (atuais Espírito Santo e Rio de Janeiro). Levando em consideração a tinta no papel de Isabel em 1888, a escravidão tupiniquim durou teoricamente 358 anos!

Se a gente pensar que a escravidão estadunidense começou em 1619 e terminou (tudo isso teoricamente, tá) em 1863, temos aí 244 anos – 114 anos a menos do que no Brasil. Essa matemática e analogia toda pra dizer que fica parecendo que a gente quer esconder a poeira pra debaixo do tapete quando fala ou comete atos racistas justificando que não há ligação com o passado ou ainda quando afirmamos que as consequências e sequelas desse sistema foram superadas.

É fácil entender: 3 séculos são trezentos anos! E não foram  trezentos anos de tentativa de reparação, não foram  trezentos anos de tentativa de mudança de mentalidade. Foram  trezentos anos também de escravidão mental, de discursos amenos e mentirosos. Só em 2004 um presidente brasileiro admitiu que o país era racista. Só agora entendemos todos que não vivemos uma democracia racial e que nossas oportunidades não são iguais.

Foram 3 séculos de ação nefasta para um povo que se quer foi consultado quando a política era a do café com leite, quando a mão-de-obra barata veio pelo atlântico novamente (mas dessa vez japoneses, italianos, alemãs…). Foram 358 anos de violência, silêncio e opressão legalizados.

125 é menor que 358 e matemática a gente não discute, não é?

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.