I woke up like this: os mecanismos do racismo na música

Acordei com aquela angústia no peito, depois de ter assistido o doc-minissérie Tim Maia na rede globo de televisão. Aquele aperto e desespero que só vão se desfazendo quando a gente derrama as palavras, transformando-as em mal traçadas linhas.

Desde que foi anunciada a minissérie, vinha acompanhando e pesquisando sobre o cenário da música negra no Brasil e no mundo. Como não acredito em coincidência, entendi que o recado estava dado quando “acidentalmente” parei num canal da TV onde passava o documentário sobre a vida de James Brown.

Soa até ingênuo tentar englobar nesse texto todas as contribuições da comunidade negra na música ao redor do mundo. É lógico que serei incapaz de destrinchar e incluir todxs xs grandes artistas que foram, são e serão referências dentro dos seus gêneros musicais aqui no Brasil e no mundo todo, mas tentarei de uma forma geral dar sentido histórico e explicar nessas poucas palavras como age o racismo, o machismo na música negra, usando as mídias e a indústria cultural como plano de fundo.

A primeira coisa a ser dita é que ninguém faz nada sozinho. Assim, todos os movimentos (sejam eles literários, sociais ou artísticos) são resultado de uma junção de pessoas e coletivos trabalhando naquele mesmo período uma mesma ideia, ainda que em diferentes lugares, linguagens ou expressões. Por isso, o fato de achar que um artista, seja ele branco ou negro, é um gênio e que de uma hora pra outra teve uma “iluminação” e pariu uma obra sozinho é ingênua.

Como afirma o escritor Alex Ratts, no seu perfil do site social:

Na abordagem da trajetória de artistas negrxs como ele e outrxs que atravessaram o mercado, mas não apenas sucumbiram, falta vê-lxs (com raras exceções críticas), como expressão da diáspora africana nas Américas, entre dilemas da arte e da política, o que pode suplantar as imagens feitas pelos filtros midiáticos.

Não é possível pensar na existência de uma expressão sem levar em consideração os enlaces, tramas e ressignificações políticas, sociais e culturais que partem de diferentes lugares do mundo e que são influências claras para a construção das artes, sobretudo no caso da música.

Partindo do meu lugar, de mulher negra, e sem me ater ao tempo cronológico, vou começar pela Axé Music. Essa que é hoje sinônimo da industria cultural baiana que mais fatura no carnaval e fora dele, foi e é construída a partir das influências negras vindas de várias partes do mundo e que chegou até os guetos: os Blocos Afro foram/são os catalisadores e disseminadores do estilo musical que juntou ijexá, meregue (alguns ditos ritmos latinos) e frevo. O ritmo que explodiu as rádios, os ouvidos e as cinturas de baianos e brasileiros trouxe pra mídia ícones como a Banda Reflexus e sua cantora Marinez, de voz forte e  inigualável. O Ilê Ayê, os Filhos de Gandhy e o AraKetu são alguns poucos exemplos da imensa gama de agremiações e grupos que beberam da fonte da cultura, da política e da música negra de diversos lugares do mundo, vide a canção “Libertem Mandela”, com letra do compositor Rey Zulu e interpretada pela Banda Reflexus.

Porém, o que conhecemos hoje como Axé Music pouco lembra o que aconteceu nos anos 80, a começar pelo protagonismo das cantoras brancas e oriundas das escolas de música da high society baiana, passando pela invisibilidade de cantoras como Margareth Menezes, Márcia Short e Alobened Airam (ex Banda Mel), terminando com o esquecimento dos compositores negros que estão por trás dos hits de sucesso, como Rey Zulu, Alain Tavares e Magary Lord.

Pegando a ponte aérea e indo lá pra Jamaica dos anos 60, a gente não vê diferença no que o racismo fez com os “The Wailing Wailers”: primeiro grupo no qual os integrantes eram Bunny Wailer, Bob Marley e Peter Tosh. Esses três, depois de bater bastante biela, foram contratados pela gravadora Island Record, de Chris Blackwell que logo fez o favor de tirar da banda o tecladista mais retinto e dito “problemático” – Peter Tosh – e colocar como protagonista e destaque a voz do meio, Bob Marley.

The Wailing

É claro que esse episódio é só mais uma pequena mostra do que o racismo pode fazer na indústria da música, já que não demoraria muito pra que um dos maiores sucessos do primeiro artista negro oriundo de um país subdesenvolvido ficasse conhecido não pela sua voz, mas pelos timbres de Eric Clapton. Sim, Bob Marley escreve e grava “I shot the Sheriff”, mas só na voz do branco roqueiro, que por sinal estava sem gravar há 4 anos, a música alcança o primeiro lugar nas rádios americanas e européias.

O poeta jamaicano, Linton Kwesi Johnson no documentário “I shot the sheriff”, diz:

Na história da música negra, nós criamos um estilo particular de música e são os artistas brancos que faturam com isso. Isso acontece desde Elvis Presley até Eminem. Não há nada de surpreendente.

E se mirarmos com mais atenção, perceberemos que existem algumas características comuns e básicas na atuação do racismo na música. O que aconteceu com Bob Marley, rolou com Chuck Berry que foi precursor de Presley e está hoje em Anitta, Cláudia Leite e Iggy Azalea: apropriação!

A industria da música se apropria dos discursos, dos estilos e linhas básicas da música negra, garimpando-as e entregando assim a representantes brancxs, tornando o produto “palatável” e pronto pra ser consumido da forma mais padronizada possível.

Reparem que nesse quesito, o racismo não poupa gênero: quem aqui ainda se lembra de Tati Quebra Barraco e seu protagonismo no Funk Carioca? Uma das primeiras mulheres a usar discurso de liberdade sexual no início dos anos 90 foi engolida pelas outras funkeiras brancas e magras, que até fazem proibidão, mas preferem polir suas letras para tocar no rádio e ser aceitas na TV e nas propagandas de produtos de limpeza.

Reconhecimento tardio é outro traço do racismo na música: o que dizer da invisibilidade no início da carreira relegada a artistas como Jovelina Pérola Negra, Ella Fitzgerald, Dona Ivone Lara, Clementina de Jesus, Cesária Évora? Muitas delas tiveram que trabalhar em outras áreas, pois não eram aceitas no mundo da música – ou só tiveram seu primeiro álbum gravado na terceira idade, como foi o caso de Clementina e Cesária. Sem contar as trapaças, as negações e embranquecimentos como os que aconteceram aos artistas negros Tim Maia, James Brown, Michael Jackson, Peter Tosh e tantos outros ícones da black music.

Tentar esconder a contribuição e influência dos artistas negros na diáspora entre si, transformando esses em gênios isolados da cultura e da efervescência de suas épocas é o modo como o racismo encontrou para desconectar e invisibilizar as obras coletivas nas diversas épocas, além de claro, descreditar o feito das negras e negros na música brasileira e mundial.

Hoje, as mídias sociais e o acesso relativamente facilitado aos meios de produção fazem com que jovens artistas negros ganhem destaque na indústria da música, mas ainda assim vemos os tais mecanismos racistas a podar e apagar compositores, produtores, cantores e intérpretes negros e negras em detrimento de artistas brancos que venderão bem mais, seja qual estilo for.

Vendo Tim Maia e James Brown retratados de maneira nojenta e tendenciosa, tenho certeza que a história da black music está minada por racismo, machismo e escrotices que nos fazem acordar no outro dia querendo saber quando isso tudo vai mudar.

Por enquanto, seguimos ouvindo os argumentos enfáticos da espetacular Azealia Banks:

 

 

Racismo: também está quando você não vê

A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198 estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço desse ano, de um trote na mesma Faculdade.

O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi utilizada na processo. Os 198  estudantes serão processados por comercialização e distribuição de bebida alcoólica.

 Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio. 

Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é racismo.

O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial reinará sobre a justiça e equidade?

Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas deixadas pela opressão se fechem?

Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente naquele trote?

Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15 de março.

Carta Aberta à “Nega do cabelo duro”

Semana passada surgiu um vídeo no youtube onde uma criança branca (muito provavelmente estimulada pelos pais) faz uma paródia, em tons de “humor” sobre ser negra do cabelo duro. Vocês vão dizer que é histeria, que foi mal entendido ou coisa que o valha, mas a verdade é que esse tipo de “brincadeira” tem uma origem racista e de conotação ofensiva. Para saber mais sobre, é só dar uma olhada no post das Blogueiras Negras sobre Blackface. Enfim, nosso repúdio e manifesto contra o incentivo de atitudes racistas nas crianças:

blogagem_coletiva

Tania,

A primeira coisa a ser dita é que nada nos preparou para escrever essa carta. Mesmo assim, em nome de mães e pais negros e afrodescendentes, precisamos falar sobre um vídeo de sua responsabilidade postado no youtube. Estou falando de Sofia, Nega do Cabelo Duro, em que uma criança com o rosto pintado de negro interpreta essa famosa marchinha que há muito tempo sabemos ser racista.

Acreditamos que a pequena Sofia seja próxima a você, talvez sua filha, sobrinha. Ela aparece gesticulando e fazendo caretas, contrariada enquanto usa vários pentes. Seu cabelo é apresentado como complicado, “difícil”, “duro”. Enfim, não “desmancha nem na areia”. Somente o maior dos pentes, o amarelo, consegue resolver o “problema”. É o “pente que te penteia”.

Imagino também que você, como muitas pessoas, dirá que foi uma “divertida” e “inocente” “homenagem”. Que o objetivo dessa “brincadeira” não foi ofender mulheres (e meninas) negras e afrodescendentes. Só que foi justamente esse o efeito de seu vídeo, e por isso decidimos escrever, para que o preconceito contra nossa pele e nosso cabelo acabe.

Desde a colonização deste país, a pessoa negra é tratada como uma “raça à parte”, como se não fosse incluída na humanidade, como se nossa aparência não fosse “correta”. Como se o “normal” e desejável fosse ser branco, de cabelos lisos. Como muitas pessoas pensaram assim ao longo dos séculos e ainda pensam, o racismo ainda contamina profundamente a maneira como somos mostrados na televisão, nas revistas e também na internet.

A ideia de que ser branco é ser bonito faz com que milhões de mulheres pretas comprem produtos de alisamento e relaxamento para que seus cabelos percam volume, para que se sintam mais “aceitáveis” dentro de um padrão eurocêntrico racista. Assim como ensinou Sofia, nós também somos ensinadas que nossos cabelos são “ruins”, “difíceis de cuidar”. Que não são bonitos e nem práticos. Isso nos destrói por dentro desde muito cedo.

É assim que a autoestima de crianças, adolescentes e mulheres negras é destruída. É assim que, ao invés amar quem somos e nossas origens, aprendemos a odiar nossos corpos, nossos cabelos. É por isso que muitas de nós tentam se parecer com aquilo que o racismo diz que é correto, que é ser limpo, que é ter uma aparência profissional. É por isso que muitas mães alisam os cabelos de suas filhas tão cedo.

Só que, ao longo dos anos, homens e mulheres pretas vem se unindo para lutar contra o racismo. Trabalhamos o conceito de amor e de manutenção de nossas características individuais, que são lindas. Não somente entre nós, como também em nossos filhos, pois percebemos que é muito importante que o nosso povo não aceite tamanha opressão. Que acredite que a cor da nossa pele e a textura dos nosso cabelos não pode interferir na maneira como as pessoas nos enxergam.

Talvez você não saiba, mas pintar o rosto para fazer imitações de pessoas negras é racismo. É divertido para muita gente, mas não para todo mundo. É um tipo de humor que tem aparecido com muita frequência na televisão, infelizmente. Um dos maiores exemplo disso é a Dona Adelaide do Zorra Total. O nome desse tipo de piada em português é Cara preta (Black Face). Aqui você pode ler um ótimo artigo sobre o assunto, explicando com detalhes porque são terríveis.

É o tipo de piada que faz as pessoas pensarem que nós, negros, não somos bonitos, educados e honestos. Que nós, mulheres negras, não temos dentes, que nossos cabelos são feios. É o tipo de piada que ensina às crianças que pessoas negras são fedidas, feias, desagradáveis. Que não é muito bom ter amigos negros. Infelzimente, é quase sempre assim que nós, mulheres negras, aparecemos na televisão.

São essas pequenas grandes piadas que fazem com que as pessoas se esqueçam que nós somos humanos tanto quanto pessoas brancas. E quando as pessoas se esquecem que nós somos humanos, elas se acostumam com o racismo. O racismo, por sua vez, faz com que as pessoas achem normal que nossos jovens morram cedo, que nossas crianças não tenham educação de boa qualidade.

Precisamos dizer com toda sinceridade que estamos acostumadas com esse tipo de piada. Mas seu vídeo é o único que vi até hoje onde uma criança, que provavelmente não tem a menor ideia do que tudo isso significa, faz esse tipo de coisa. Por causa disso, não somos apenas nós, mulheres adultas, que somos motivo de riso. São nossas crianças, nossas filhas.

Falaremos em nome de todas as mães negras e afrodescendentes cujas filhas, infelizmente, serão chamadas de negas do cabelo duro várias vezes ao longo da vida. Certamente um “elogio” que nenhuma mãe gostaria de ouvir. Nós podemos, como mães e pais, combater esse racismo. Mas você também pode Tania, ensinando que esse tipo de brincadeira nunca deveria ser repetida.

Não conseguimos entender até agora que mensagem você tentou passar pra Sofia. Afinal de contas, está claro que a pequena é branca apenas pros padrões brasileiros, porque todo brasileiro se acha MUITO branco, né? Mas na verdade, sabemos que o motivo de seu cabelo ser cacheado é justamente o sangue africano correndo em suas veias, o que faz com que ela seja afrodescendente.

Sinceramente? Seu vídeo é de extremo mau gosto. Estimula crianças a desrespeitarem quem são. Afinal, por que ensinar uma criança a pintar seu rosto de preto, que “cabelo duro” é “coisa de preto”? Por que ensinar uma criança a ser racista? Por que não ensinar que todos os seres humanos nascem diferentes e que justamente por isso somos maravilhosos? Que devemos amar e respeitar quem é diferente de nós, por que é assim que seremos respeitados?

Estamos numa era de transformação, na qual todos os seres humanos se encaixam e devem ser respeitados. Uma época em que todos devemos nos amar como somos, com o cabelo que temos. Ensinar o contrário põe a perder o trabalho de séculos de luta para que seja quebrado de uma vez por todas este estigma de que pessoas negras são “feias”, tem o cabelo “duro”.

Pedimos, por favor, que repense sua atitude com relação a toda a população preta, mas principalmente com uma criança “branca” que está em formação. O racismo, desde o início dos tempos, é coisa ensinada e assim segue seu fluxo. Crianças aprendem em casa e reproduzem na escola o ódio ao preto, traduzido em “brincadeira de criança” para quem pratica, mas uma quebra da autoestima pra quem sofre.

Hoje, Sofia é apenas uma criança, mas um dia vai crescer e entender. Espero que até lá esse episódio triste seja superado. Que ela tenha a oportunidade de viver num Brasil sem racismo e preconceitos de todo o tipo. É o que desejamos para ela, de coração. Porque assim, desejamos para nós mesmas e para todas as nossas crianças negras e afrodescendentes. Agora e no futuro.

Assinam,

Blogueiras Negras
Preta& Gorda
Meninas Black Power
Noivas Crespas
Ong Estimativa
COFEMLiHS
LiHS SP
Blogueiras Feministas
Marcha das Vadias Curitiba
Nós denunciamos
FemMaterna
Entre Luma e Frida
Mabia Barros
A mulher negra e o feminismo
Afrodelia 
Fatima Tardelli
Zaíra Mau Humor Pires
Talita Dias
Crespos&Cacheados Assumidos
Feministas do Cariri
FQC – Feminismo Que Cola
Blogagem Coletiva Mulher Negra

Preta Flor

Meu pé na cozinha: quem faz o trabalho grosso?

Acho que não é novidade pra ninguém que muitos dos países nesse mundo se utilizaram de mão de obra negra pra construírem suas riquezas, seus alicerces.

Também não é novidade encontrarmos pretos e pretas nos trabalhos dos mais variados, trabalhos esses na maioria das vezes de grande esforço ou subempregos. Mas o que há de surpresa no meu texto, meu caro? A novidade é que eu ontem percebi alguma mudança. Ontem eu vi muita coisa que permanece, mas vi também muita coisa diferente.

Ontem eu trabalhei numa recepção, num evento muito lindo em Olinda, para professores da rede municipal. Cheguei e fui direto procurar a dona da recepção – que me tratou muito bem e me mandou direto pra cozinha. E foi lá que eu me vi, vi minha vó e minha mãe! Era uma preta quem cozinhava perto de um fogão gigante e uma panela sem fim, enquanto uma outra cortava cebolas e elogiava meu cabelo.

Durante a recepção, com os seguranças que são meus amigos (aliás, um beijo especial pra Hugo Isidoro) ia olhando cada professor e cada expressão: muitas mulheres pretas, diretoras, coordenadoras, professoras que me sorriam com uma simpatia sem fim. Apesar de estar trabalhando, me divertir e fiquei exponencialmente feliz pois a diferença das cenas me agradava.

Pensei durante a noite toda sobre os dois lados da mesma moeda: o trabalho grosso quem faz somos nós! Os dois dão dignidade, os dois requerem grandes esforços, os dois foram e são muito bem feitos. Nós construímos desde a sala até a cozinha, e aqui eu esvazio essa expressão de “pé na cozinha” porque a considero que saindo de mim, nada tem de racista, muito pelo contrário.

Tenho muito orgulho de ter nos visto ali, mulheres pretas: da cozinha até a sala de aula

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Uma homenagem a D. Carmelita Paula da Cruz.

Marcha das Vadias – E eu com isso?

Macha das Vadias – Recife

Esse fim de semana aconteceu a Marcha das Vadias em 13 capitais. Recife levou pras ruas mais de 2.000 vadias numa celebração triste, como disse Késia. Eu fiquei orgulhosa de todas as mulheres e especial de duas delas: uma foi Nancy, que marchou do nosso lado e disse palavras incríveis sobre a luta na Associação de Profissionais do Sexo. Nancy é uma preta forte, mulher incrível e de fibra, que organiza também a Parada da Diversidade em Recife. A outra eu peço perdão porque não vou lembrar como se chama, mas falou em nome das mulheres negras, dos coletivos LGBT’s e dos estudantes. Ela sensibilizou e mostrou que a Marcha, que o feminismo precisa estar atento as demandas dessas mulheres e homens – ela me representou.

Percebi com elas que precisamos ocupar os nossos espaços, precisamos falar, escrever cartazes com nossas demandas, debater sobre liberdade e empoderamento sob nossa ótica, sempre incluindo as que são nossas companheiras de luta. Falar que o feminismo precisa ser interseccional e atender as demandas da mulher negra, mulher trans* é bom, mas a ação precisa tomar o lugar da fala. A gente precisa aparecer!

Vi muitas de nós presentes, vi poucos cartazes que fizessem referência a nós, mas senti que estávamos ali também. Juntas pautando a nossa luta, nossos direitos e nossa liberdade. Porque, afinal, a liberdade virá para todas.

A escravidão: 3 séculos de ação

Na semana da abolição, temos (eu e alguns blogueiros) tentado resgatar o que aconteceu naquele Brasil de oitocentos, muito além do fato de Isabel ter assinado a lei de duas linhas.

Pensando que comemoramos e relembramos os 125 anos de abolição, esquecemos de fazer uma conta bem básica, vamos a ela: O Brasil foi descoberto em 1500, em 1530 chegaram os primeiros africanos – o mais antigo registro fala de uma remessa de 17 “peças” para o então capitão-mor Pedro Góis pra sua capitania de São Tomé (atuais Espírito Santo e Rio de Janeiro). Levando em consideração a tinta no papel de Isabel em 1888, a escravidão tupiniquim durou teoricamente 358 anos!

Se a gente pensar que a escravidão estadunidense começou em 1619 e terminou (tudo isso teoricamente, tá) em 1863, temos aí 244 anos – 114 anos a menos do que no Brasil. Essa matemática e analogia toda pra dizer que fica parecendo que a gente quer esconder a poeira pra debaixo do tapete quando fala ou comete atos racistas justificando que não há ligação com o passado ou ainda quando afirmamos que as consequências e sequelas desse sistema foram superadas.

É fácil entender: 3 séculos são trezentos anos! E não foram  trezentos anos de tentativa de reparação, não foram  trezentos anos de tentativa de mudança de mentalidade. Foram  trezentos anos também de escravidão mental, de discursos amenos e mentirosos. Só em 2004 um presidente brasileiro admitiu que o país era racista. Só agora entendemos todos que não vivemos uma democracia racial e que nossas oportunidades não são iguais.

Foram 3 séculos de ação nefasta para um povo que se quer foi consultado quando a política era a do café com leite, quando a mão-de-obra barata veio pelo atlântico novamente (mas dessa vez japoneses, italianos, alemãs…). Foram 358 anos de violência, silêncio e opressão legalizados.

125 é menor que 358 e matemática a gente não discute, não é?

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.

Dias de Negro

Inspirada pela Blogagem Coletiva Luiza Mahin inaugurei mais uma página pra tomar conta. Mas melhor do que ter mais um lugar pra alimentar é poder fazê-lo num dia simbólico, num dia de resistência.

E falando no decorrer dos dias, gostaria de lembrá-los (ou mesmo fazê-los descobrir, assim como eu) os momentos que precederam a tão falada abolição. Como bem lembrou o blogueiro Thomas Conti, as agitações, revoluções e revoltas já tomavam conta do Brasil de oitocentos e diversos ativistas favoráveis ao abolicionismo eram grandes conhecidos da época – nomes como José do Patrocínio, Luis da Gama e Joaquim Nabuco. 

Ao contrário do que se pensa ou se ouve nas aulas de história, a resistência/ insurgência negra foi a grande mola propulsora da abolição. Revoltas como as dos Malês, e as fugas em massa dos escravizados deixaram o império abalado e o sistema escravista tremeu. Apesar de sabermos que a grande parte dos negros que fugiram fizeram o caminho da casa grande para os quilombos distantes (no sertão, portos ou recôncavos dos estados), houve também uma “fuga para fora” (Silva, Eduardo, 1989)*, que foi a incursão do negro no cotidiano das cidades, aqui cito especificamente na cidade do Recife.

A sociedade escravista sempre foi baseada na mão de obra do negro e essa dinâmica não era diferente na vida urbana: os negros faziam tarefas desde transportar água e lenha até vender alimentos e outros objetos, esses ficaram conhecidos como negros de ganho,  que tinham inclusive uma liberdade parcial e que apesar de estarem sujeitados emocional e financeiramente ao seus senhores, tinham alguma autonomia sobre os “negócios”, a sua moradia, vestimenta e etc.

O que acontecia era que uma grande parte desses negros que ganhavam a autorização de seus senhores para viverem “sobre si” e habitarem os mocambos recifenses e que, aproveitando a frouxidão da vigilância de feitores e mesmo da polícia – que ainda não tinha esse nome -, inúmeros deles acabavam se escondendo e fugindo das vistas do seu antigo dono. É óbvio que isso levava os negros a caírem na clandestinidade e apesar da aparente liberdade, um outro mecanismo de controle apareceu para aterrorizar: a polícia.

Segundo Welligton Barbosa, no artigo Entre Sobrados e Mocambos: Fuga de Escravos e Ação da Polícia no Recife Oitocentista o que houve foi uma “Feitorização do Estado”, no que ele diz:

(…) Não devemos imaginar que os centros urbanos eram lugares paradisíacos, onde escorriam leite e mel, sem nenhum tipo de vigilância e controle. A cidade que escondia ensejava aos poucos a cidade que desconfiava, que transformava todos os negros em suspeito. A ausência do feitor era compensada por outros aparatos de vigilância e repressão: a feitorização estatal.

Portanto, é muito, muito importante admitir sem nenhuma pretensão que a abolição foi construída no dia-a-dia. Que os oitocentos foram anos de lutas, fugas, estratégias e resistência verdadeira, não só nos quilombos isolados, não só na fuga para os portos e nem só no esconderijo nos mocambos e sobrados das cidades. Foi resistência e fuga na vida, foi sobrevivência e liberdade das amarras do ideológico colonial, mesquinho e tolhedor. Foi e é, porque a luta nunca acabou e os dias continuam sendo de resistência nossa.

*Referência ao livro Negociação e Conflito: a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo, 1989 de Eduardo Silva e João José Reis.

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.