Mirian França, a polícia e o genocídio das mulheres negras

Nessa quarta-feira fariam 15 dias que Mirian França foi acusada e presa arbitrariamente sob suspeita de ter assassinado Gaia Molinari.

Mirian França, carioca e doutoranda em Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro estava de férias no Ceará, onde tinha planos de passar o Reveillon passeando pelas praias do Estado.

Gaia Molinari se hospedou no Hostel Refúgio, onde conheceu a farmacêutica, pesquisadora e doutora Mirian França. As duas conversaram e Mirian comentou que a mãe havia desistido de viajar para Jericoacoara e Gaia se ofereceu para acompanhar a carioca, já que as reservas estavam feitas para duas pessoas e a italiana não teria gastos extras com quartos.

Ao que se sabe, as duas não eram amigas de longa data. Apesar dos rumores levantados pela investigação policial de um relacionamento, amigos e parentes não confirmam tal versão:

“Mirian vinha programando essa viagem há tempos. Ela até me perguntou se eu conhecia as redondezas de Fortaleza, porque estava muito animada em conhecer as praias paradisíacas. Infelizmente, eu não pude ajudá-la porque desconhecia o território. Mas se eu soubesse que era um local violento, eu nunca indicaria visitas nesses locais.

Quando Mirian soube da morte de Gaia, ela procurou ser testemunha e por se contradizer passou a ser suspeita e foi imediatamente presa pela delegada Patrícia Bezerra. Acreditem, uma das contradições seria sobre quantas vezes Gaia tomou café da manhã”

Bruno Nunes, no seu perfil do Facebook.

 

Diferente dos outros acusados e suspeitos que foram levados a depor, Mirian França foi a única intimada a colaborar com a investigação e não saiu da delegacia, ficando presa por 14 dias, pois segundo a delegada do caso, suas declarações eram inconsistentes e contraditórias.

D. Valdicéia – mãe de Mirian -, as mulheres negras e todos os pertencentes aos grupos negros que se mobilizaram durante esses dias não tem dúvida: a prisão arbitrária de Mirian França é um caso explícito de racismo e demonstra como trabalha a polícia e a justiça nesse país. Está claro também que a morte de Gaia faz parte de uma prática que vem sido conhecida pelos cearenses nos últimos anos – o feminicídio – e que quase nunca termina em solução ou justiça para as vítimas, mas é óbvio que a prioridade não é somente esclarecer a população acerca dos crimes ou agir sistematicamente combatendo a violência contras as mulheres. A preocupação do Estado do Ceará é com a imagem passada aos turistas e futuros visitantes durante a alta temporada: segundo alguns comentários, a prisão de Mirian França fazia parte de uma dessas medidas emergenciais para demonstrar efetividade e ação do Estado.

haíssa_motta

Entendendo que essas práticas são sim sintomas de um sistema perverso, racista e machista, preciso mencionar outra mulher negra vítima das ações policiais: Haíssa Vargas Motta, carioca de 22 anos foi lembrada essa semana, depois da divulgação do vídeo da ação dos policiais que mostra o despreparo e a brutalidade da instituição mais racista do Brasil.

As imagens só confirmam o que a gente já sabe: eles atiram pra depois perguntar! Ferindo de morte uma jovem negra e junto com ela sua comunidade, sua família.

Haíssa não será esquecida, assim como Cláudia e tantas outras mulheres negras que são alvo da violência policial e viram para as grandes mídias estatística de corpos negros que sangram mediante ao genocídio da nossa população.

Não coincidentemente no último domingo presenciei a abordagem de policiais a duas mulheres negras no evento “Canto da Rua”, no Jardim dos Namorados, em Salvador. Terminado o show, depois de [claro!] abordar um grupo de jovens negros de maneira humilhante, um grupo de policiais identificados pela numeração 2004 abordou duas mulheres que haviam argumentando algo aos mesmos. A cena foi revoltante!

Os policiais – homens e agindo contra a lei, diga-se de passagem – imobilizaram uma das mulheres, colocando um dos braços dela para trás e a outra, vendo a ação, correu para socorrer a amiga, que em vão era jogada no chão. As duas se abraçaram, num ato solidário e de resistência, mas não adiantou. Os dois policiais continuaram a agressão e levaram as duas mulheres em direção a viatura. A multidão perplexa e paralisada nada fez a não ser conversar entre si sobre a atrocidade e recuar, quando novamente um bando de policiais voltara para inspecionar algo pelo chão.

Como bem nos alertou Jaqueline Gomes de Jesus:

É bastante apontado, pelos movimentos negros, o uso excessivo dos poderes de polícia no que tange à revista de homens negros (popularmente conhecida como “baculejo” ou “dar uma dura”), principalmente os jovens, mas, igualmente, as políticas de detenção e de custódia são envoltas em constantes dúvidas quanto a sua eficácia e adequação, quando aplicadas à população negra.

Mirian França recebeu ontem a liberação da prisão preventiva, depois de muita pressão social, de reuniões entre órgãos públicos, delegados, advogados e ativistas. Atos e mobilizações, petições , compartilhamentos e comentários de mais de 6 mil pessoas no evento do Facebook. Mas a marca do racismo ficará pra sempre em Mirian e em nós, mulheres negras. O medo de ser a próxima nos assombra e por isso permaneceremos atentas.

Haíssa viverá para sempre na memórias de nossas mulheres, sua família continuará clamando por justiça, assim com a família de Cláudia e a daquelas duas jovens que foram até o Jardim dos Namorados se divertir e acabaram no camburão de uma viatura.

Permaneceremos com os punhos em riste, continuaremos com essas mulheres negras nas nossas memórias e lutaremos sempre contra o fim dos autos de resistência, contra os baculejos e abordagens policiais ilegais e a favor da desmilitarização da polícia que é racista, machista, homolesbotransfóbica.

 

REFERÊNCIAS:

Mamapress – https://mamapress.wordpress.com/page/3/

Evento Facebook Libertem Mirian França –https://www.facebook.com/events/1541526549436470/?ref=ts&fref=ts

O Caso Haíssa Motta – http://www.geledes.org.br/nao-tem-perdao-diz-irma-de-jovem-morta-por-engano-por-pms/#axzz3Oc0ZtHOU

Blog Jaque Jesus – http://jaquejesus.blogspot.com.br/2015/01/o-caso-mirian-franca.html