Ele bate nela – A naturalização da violência

violência_mulher negra

Me lembro da primeira vez que fui a uma DEAM [delegacia da mulher] testemunhar em favor de uma amiga feminista negra que havia sofrido violências do seu ex-marido.

Durante os minutos mais longos da minha vida, enquanto aguardávamos a chegada da delegada, um dos policiais fazia o diagnóstico do fim de semana: das 20 ligações recebidas, somente 10 chegaram a ser detidos, dos 10 detidos, 6 foram liberados e dos 4 que ficaram detidos, somente 2 eram flagrantes e foram encaminhados a detenção da cidade.

Esse número é o retrato de como a violência contra a mulher é banalizada, encontrando pelo caminho várias barreiras legais e burocráticas e por isso mesmo tem se transformado na maior causa de morte de mulheres. Segundo o relatório do Ipea Tolerância Social a Violência Contra as mulheres, 82% dos entrevistados concordam com a expressão “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

O machismo, o sexismo e a misoginia são os vetores que combinados a doses cavalares de desinformação, falta de empatia e brutalidade levam os homens a agredirem e matarem as mulheres. Sim, morremos simbolicamente todos os dias quando somos assediadas nas ruas, quando sofremos violência psicológica dentro das nossas próprias casas, mas morremos e – exponencialmente morremos de fato – nos casos de feminicídio cinicamente disfarçados de crime passional, espalhados por todo o país, todos os dias.

Há quem diga que o assassinato dos 4 filhos e suicídio de Marco Aurélio Almeida Santos, que colidiu seu carro contra uma carreta na BR-070, em Cocalzinho de Goiás, nada tem a ver com seu relacionamento com Samara, sua ex-mulher. Em sua carta, deixada nas mãos dela, ele afirma: “hoje será o último dia que você verá seus filhos e seu marido, pode ficar com a casa e voltar a sua vida, mas com meus filhos você não viverá essa pouca vergonha”. Há também que afirme que se ele estava em depressão, “era melhor ter matado a mulher e deixado os filhos”

Fica bastante clara a tolerância social à violência e a desvalorização da vida da mulher, onde nossa existência é mais que descartável, é inconveniente! E isso está tão naturalizado que a gente pode ouvir essas coisas sem nenhum pudor, sem ninguém exitar em falar: “Ah, mas era mulher”.

Naquele dia, minha amiga precisou alternar entre engolir o choro e chorar várias vezes enquanto nos contava sobre o que havia ocorrido na sua casa. Nem imagino o quanto ela sofreu tendo que fazer o relato mais algumas vezes para a delegada e para os outros agentes da DEAM. E assim, o ciclo da violência se repete várias e várias vezes e a cada momento que você tem que explicar porque ser chamada de “linda” no meio da rua não é elogio, ou contar aquele caso do cara que te encoxou no ônibus. Ou ainda repetir inúmeras vezes que a culpa do estupro no Caso New Hit não é das vítimas.

O que há de mais chocante nos casos de violência contra mulher são as contradições – que claro, são discursos e imagens contraditórias produzidas pelo próprio patriarcado. No Mapa da Violência de 2010, 78% dos entrevistados concordaram totalmente com a prisão para maridos que batem em suas esposas, ao passo que 65% concordam que a mulher agredida que continua com o marido gosta de apanhar. Queria de verdade entender essa lógica, que criminaliza a violência, mas ainda assim culpa a mulher e a transforma em seu próprio algoz. #TádifícilBrasil

Isso me faz lembrar que geralmente essas mulheres – as mais criminalizadas e ditas culpadas pela violência – tem características específicas, como as da minha amiga feminista negra. Mães solteiras, pobres e claro, pretas! No texto das Blogueiras FeministasA violência contra as mulheres negras”, Priscilla Caroline afirma:

As mulheres negras são as maiores vítimas da violência doméstica. Segundo os dados apresentados no Mapa da Violência, em 2010, morreram 48% mais mulheres negras do que brancas vítimas de homicídio, diferença que vem se mantendo ao longo dos anos.

(…) 92,2% dos casos de agressão física das mulheres negras e em 89,3% dos casos das mulheres brancas, a violência aconteceu na própria residência, partindo do cônjuge, ex-cônjuge, parente ou conhecido. Ou seja, a violência no Brasil possui um importante viés de raça, estando a incidência de violência racista profundamente relacionada à violência sexista.

Posso apostar que aquelas estatísticas que mencionei logo no início do texto, relatada pelo policial da DEAM, são 100% de mulheres negras, entendendo inclusive que a localização da delegacia denuncia isso. Não tenho dúvidas que somos nós a grande ponta e todo o iceberg de vítimas nos casos de violência contra a mulher.

Isso porque, além de tudo, o fato de sermos mulher negra se traduz, significativamente, no exercício duplo da dominação masculina[1] onde agem em conjunto e embrincados os fatores gênero e raça.

Apesar da Lei Maria da Penha, que versa sobre a criminalização dos casos das várias violências contra as mulheres e a mais recente conquista, a inclusão do Feminicídio no código penal brasileiro, a gente sabe que zilhões de marcadores impedem que uma denúncia se concretize: desde as barreiras burocráticas, passando pela má vontade e falta de treinamento dos atores envolvidos no processo (policiais, agentes, delegados) até os medos, inseguranças e instabilidades na vida das mulheres negras.

Depois daquela denúncia e do meu depoimento no caso da minha amiga, fiquei pensando quantas mulheres não tem se quer a possibilidade de chegar na delegacia – seja por dinheiro de transporte, por medo ou por ameça do agressor. Refleti sobre quantas daquelas outras mulheres que estavam ali tinham “avançado” em seus casos, chegando até a medida protetiva que, dependendo da ação do agressor e do número de denúncias, demora meses ou até anos.

E tenho certeza que só o apoio de umas às outras, nossa luta e o empoderamento fará com que a violência contra a mulher deixe de ser tolerada e naturalizada.

 

REFERÊNCIAS:

[1] Mulheres negras vítimas de violência doméstica conjugal. Mirian Lúcia dos Santos. PUC São Paulo, 2011.

Mapa da Violência. A anatomia dos homicídios no Brasil. Julio Jacobo Waiselfisz, 2010.