Namorar não é isso

Quando eu comecei a me relacionar afetivamente [com meninos] eu devia ter mais ou menos 15 anos. Essa época em que a gente descobre que o amor da sua vida pode ser também o amor da vida de outra pessoa, ou mesmo que esse amor pode não ser correspondido e ainda assim continua sendo amor.

Bom, com 15 anos você ainda não se dá conta dos preconceitos nem dos fatos sociais minando decisões, relações individuais, e só depois [muito depois] você percebe os padrões se repetindo e aparecendo sempre como um anúncio em pop-up.

Na minha primeira paixão, o moço que era 3 anos mais velho que eu, fez questão que nem eu nem minhas amigas soubessem que ele tinha uma namorada. Sabendo ele que estava eu apaixonada, no segundo encontro ele teve a “necessidade” de garantir território e tentar uma relação sexual. Não rolou, eu já era mais safa do que imaginávamos [sim, eu não tinha me dado conta disso até outro dia] e logo meu “amor” esfriou. Ele, que era um moço branco, insistiu nisso algumas outras vezes, comigo sempre saindo à francesa, escapando da violência e pensando “Namorar é isso”.

Com o segundo rapaz, uma relação mais sólida, digamos assim. Apesar de entender que éramos infinitamente diferente nos objetivos [eu com 20 e ele 25], tínhamos um acordo bastante flexível: Ele tinha uma outra namorada com quem as relações sexuais eram permitidas, diferente de mim. Não sabia mesmo o que isso significava, nem quais eram as implicações noutras relações mais tarde, mas estava satisfeita. Havia dias definidos de nos encontrarmos, assim como havia com ela [só depois ele me disse que também a namorava] e um acordo sobre uma outra pessoa nessas relações: não haveria uma.

Com esse, não sofria tanto quanto o primeiro, mas ficava sempre uma dúvida pairando no ar sobre o que significava aquilo e de quanto de amor e carinho ele me dedicava, mas eu pensava comigo mesma: “Namorar é isso!”.

O terceiro relacionamento era um relacionamento “”””””aberto””””””. Sim, com muitas aspas, primeiro porque eu não o designava assim, muito menos sabia o que isso significava e depois porque era assim pra mim e não para o outro. Esse foi um dos relacionamentos que mais me doeu: sem saber bem o porquê, nosso encontro só acontecia nos horários das últimas aulas e ninguém, absolutamente ninguém podia saber que namorávamos. É claro que minhas amigas todas sabiam, mas nenhum amigo dele, ninguém da comunidade ou da escola podia imaginar que estávamos nos encontrando, por isso tudo era escondido.

Ele [branco], alegava que não era ainda a hora, que precisávamos amadurecer o relacionamento. E eu, enquanto isso, ia ficando com outros moços e acreditando que ele não namorava mais ninguém. Filávamos aula, ultrapassávamos o horário de ir pra casa, invadindo o turno da tarde mas não ousávamos ficar em festas, lanchonetes, reuniões de amigos. E eu pensava: “Namorar é isso!”.

Por fim, o relacionamento mais abusivo de todos: eu imaginava que estava sendo amada incondicionalmente. Um homem negro, lindo e inteiro cuidava de mim, estava sempre perto, bem perto. Até eu perceber que era perto demais. Num momento de transição bastante importante, que foi o ingresso na universidade e a descoberta da liberdade, o homem que eu amava começou a me sufocar.

No início, o que eram boas surpresas – como os aparecimentos repentinos no estágio – viraram ameaças, emboscadas e chantagens. Ligações no meio das aulas, insinuações de traição e argumentos que me colocavam sempre como culpada. Até que num acesso de ciúmes, ele brigou com alguém que passara e me olhara na rua e a violência chegou até minha família [que óbvio, me culpou pelo relacionamento]. E nesse fim eu pensei: “Namorar é isso, querida”.

Muito tempo depois, quando me tornei negra*, quando descobri-me senhora de mim, percebi que namorar nunca foi nada daquilo. Não era, não podia ser.

Somos nutridas ao longo da vida por ideias de que para ser feliz é preciso sofrer, de que relacionamentos precisam ter ciúmes e de que os modelos dos folhetins das 9 precisam ser replicados em nossas vidas, porque se não, não é verdade.

Dei-me conta de que preconceitos, racismos, violências e frustrações alheias minaram todos meus relacionamentos até então, e foram nomeados de amor e trouxeram mais sofrimento do que alegria. Percebi que nem eu nem ninguém merecia negar-se a si mesmo, em nome de uma gota de sentimentos, restos do tacho do amor que sobrou de outro alguém.

E isso não é a gente que faz. Não é culpa nossa. É aquela velha mania construída de se render a um “amor” como se não houvesse nenhum outro do qual sejamos dignas. Como se fosse a última oportunidade de ser amada e de que “se ele me aceitou, afinal, preciso somente corresponder às expectativas”.

Nós, mulheres negras, não precisamos de migalhas de amor. Precisamos nos negar a acreditar que qualquer coisa nos vale, qualquer coisa é melhor que estar só. Não, não é.

Como bem disse Bell Hooks no seu emocionante texto Vivendo de Amor:

Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor. (…) A arte e a prática de amar começam com nossa capacidade de nos conhecer e afirmar. É por isso que tantos livros de auto-ajuda dizem que devemos mirar-nos num espelho e conversar com nossas próprias imagens.

 

Precisamos nos enxergar como mulheres amadas e capazes de nos amar em primeiro lugar e depois então, doarmos nosso amor a quem quer que seja [que escolhamos, claro]. Precisamos construir nosso afeto, nosso amor próprio, nossa solidariedade conosco e com as outras e assim vamos entender a liberdade que só o amor proporciona. E sem pena, sem rancor e sem desespero descobriremos que amar ou namorar não é nada daquilo que fizeram questão de nos mostrar.

Namorar pode ser mais. E será.

 

*referência ao texto de Sueli Carneiro Tornar-se Negra.

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Racismo: também está quando você não vê

A notícia de hoje (10/07/2013) do Jornal Tribuna Hoje informa que a UFMG instaurou um processo administrativo contra 198 estudantes da Faculdade de Direito que participaram, em 15 de maço desse ano, de um trote na mesma Faculdade.

O curioso é que nenhuma menção a racismo, preconceito ou nazismo foi utilizada na processo. Os 198  estudantes serão processados por comercialização e distribuição de bebida alcoólica.

 Isso mesmo, senhores! A comissão da sindicância formada por três professores da Faculdade de Direito e analisada pela Advocacia Geral da União elaboraram um documento em que NADA do que aconteceu é mencionado/relacionado à racismo ou crime de ódio. 

Apagamento também é racismo: quando a sociedade tenta, em resposta a uma atitude racista, esquecer, apagar ou diluir a discussão sem dar voz as pessoas que foram e são vítimas e reconhecem o preconceito, ela também está sendo racista. Negar o fato e esquecer que o que aconteceu faz parte de um histórico de regime colonial, separando o Trote do seu contexto sócio-cultural também é racismo. Não se retratar, não admitir o erro ou reconhecer que existe na estrutura de qualquer e toda instituição ou pessoa resquícios de um passado escravista também é racismo.

O que a comunidade de mulheres negras quer saber é: até quando o protecionismo, o negacionismo e o falso mito de democracia racial reinará sobre a justiça e equidade?

Até quando mascarar as atitudes racistas arraigadas no cotidiano das Universidades e Instituições públicas vai fazer com que as feridas deixadas pela opressão se fechem?

Onde chegaremos enquanto o corporativismo mesquinho entre instituições públicas fazem questão de varrer para debaixo do tapete o lixo tóxico do preconceito e ódio racial que está mais que aparente naquele trote?

Não nos calaremos até que a resposta seja justa. Não deixaremos de falar até que a UFMG trate com seriedade e justiça o caso do último 15 de março.

Meu pé na cozinha: quem faz o trabalho grosso?

Acho que não é novidade pra ninguém que muitos dos países nesse mundo se utilizaram de mão de obra negra pra construírem suas riquezas, seus alicerces.

Também não é novidade encontrarmos pretos e pretas nos trabalhos dos mais variados, trabalhos esses na maioria das vezes de grande esforço ou subempregos. Mas o que há de surpresa no meu texto, meu caro? A novidade é que eu ontem percebi alguma mudança. Ontem eu vi muita coisa que permanece, mas vi também muita coisa diferente.

Ontem eu trabalhei numa recepção, num evento muito lindo em Olinda, para professores da rede municipal. Cheguei e fui direto procurar a dona da recepção – que me tratou muito bem e me mandou direto pra cozinha. E foi lá que eu me vi, vi minha vó e minha mãe! Era uma preta quem cozinhava perto de um fogão gigante e uma panela sem fim, enquanto uma outra cortava cebolas e elogiava meu cabelo.

Durante a recepção, com os seguranças que são meus amigos (aliás, um beijo especial pra Hugo Isidoro) ia olhando cada professor e cada expressão: muitas mulheres pretas, diretoras, coordenadoras, professoras que me sorriam com uma simpatia sem fim. Apesar de estar trabalhando, me divertir e fiquei exponencialmente feliz pois a diferença das cenas me agradava.

Pensei durante a noite toda sobre os dois lados da mesma moeda: o trabalho grosso quem faz somos nós! Os dois dão dignidade, os dois requerem grandes esforços, os dois foram e são muito bem feitos. Nós construímos desde a sala até a cozinha, e aqui eu esvazio essa expressão de “pé na cozinha” porque a considero que saindo de mim, nada tem de racista, muito pelo contrário.

Tenho muito orgulho de ter nos visto ali, mulheres pretas: da cozinha até a sala de aula

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Uma homenagem a D. Carmelita Paula da Cruz.

A escravidão: 3 séculos de ação

Na semana da abolição, temos (eu e alguns blogueiros) tentado resgatar o que aconteceu naquele Brasil de oitocentos, muito além do fato de Isabel ter assinado a lei de duas linhas.

Pensando que comemoramos e relembramos os 125 anos de abolição, esquecemos de fazer uma conta bem básica, vamos a ela: O Brasil foi descoberto em 1500, em 1530 chegaram os primeiros africanos – o mais antigo registro fala de uma remessa de 17 “peças” para o então capitão-mor Pedro Góis pra sua capitania de São Tomé (atuais Espírito Santo e Rio de Janeiro). Levando em consideração a tinta no papel de Isabel em 1888, a escravidão tupiniquim durou teoricamente 358 anos!

Se a gente pensar que a escravidão estadunidense começou em 1619 e terminou (tudo isso teoricamente, tá) em 1863, temos aí 244 anos – 114 anos a menos do que no Brasil. Essa matemática e analogia toda pra dizer que fica parecendo que a gente quer esconder a poeira pra debaixo do tapete quando fala ou comete atos racistas justificando que não há ligação com o passado ou ainda quando afirmamos que as consequências e sequelas desse sistema foram superadas.

É fácil entender: 3 séculos são trezentos anos! E não foram  trezentos anos de tentativa de reparação, não foram  trezentos anos de tentativa de mudança de mentalidade. Foram  trezentos anos também de escravidão mental, de discursos amenos e mentirosos. Só em 2004 um presidente brasileiro admitiu que o país era racista. Só agora entendemos todos que não vivemos uma democracia racial e que nossas oportunidades não são iguais.

Foram 3 séculos de ação nefasta para um povo que se quer foi consultado quando a política era a do café com leite, quando a mão-de-obra barata veio pelo atlântico novamente (mas dessa vez japoneses, italianos, alemãs…). Foram 358 anos de violência, silêncio e opressão legalizados.

125 é menor que 358 e matemática a gente não discute, não é?

BC_Blogueiras Negras

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras nos 125 anos de Abolição.