Mulheres também codam

“Vamos fazer um evento de tecnologia para mulheres, mas vamos focar na raça e classe! Você conhece mulheres negras e baianas que trabalham com TI?” Vamos chamá-las?”

Foi assim que me pus a pensar em como estamos enfrentando o avanço das tecnologias, a apropriação dos equipamentos e linguagens e as novas possibilidades de difusão da informação. Será que estamos reproduzindo a lógica dos meios “tradicionais” quando observamos quem pode ou não ter um computador, um celular? Quem está ou não está codando, desenvolvendo?

É verdade que as pesquisas mostram que há certa inclusão digital: Até o final de 2014, a expectativa era de que haveriam 7 bilhões de linhas celulares no mundo, sendo que mais da metade delas (3,6 bilhões) estaria na região Ásia-Pacífico. Outro dado é que, até o final de 2014, também segundo a UIT (União Internacional de Telecomunicações), cerca de 3 bilhões de habitantes do mundo usariam a internet. Além disso, dois terços desses usuários de internet estariam em países em desenvolvimento. Isso corresponde a uma penetração de 40% de internet no mundo, entretanto, um dado negativo é o de que mais de 90% das pessoas sem acesso à internet no mundo estão em países em desenvolvimento.

Bom, são notícias que ainda não sabemos se foram comprovadas -provavelmente foram superadas- mas ter acesso não significa que as pessoas fazem uso de todas as potencialidades de uma determinada ferramenta, como é o caso do celular ou da internet. Mas precisamos focar nas mulheres. Quanto dessa população é de mulheres? Em que continentes e quais são as condições de acesso dessas mulheres?

Buscando responder a pergunta da colega que está com a meta de reunir mulheres – e especificamente mulheres negras – em torno de tecnologia, fiz uma busca rápida nos meus sites sociais e percebi que de todas as mulheres que conheço (mais ou menos umas 1.500), aproximadamente 30 delas trabalham com tecnologia da informação – dentre produtoras de conteúdo, analistas de redes sociais e programadoras. O mais estarrecedor é que, dessas últimas, apenas 7 são desenvolvedoras de fato (entre games e softwares) e das sete apenas UMA, eu disse UMA é mulher negra.

Que nós, mulheres negras, não tínhamos acesso à tecnologia no passado, isso parece meio óbvio, mas o que ainda nos é estranho hoje? Como podemos continuar tão distante assim do que parece tão mais fácil e às nossas mãos?

É claro que a questão é muito mais complexa do que pesquisar minhas amigas de site social. O que separa as mulheres negras da tecnologia são anos de negação de educação formal, mais séculos de trabalhos forçados e de remuneração quase que inexistente, com o plus de todos os esteriótipos de raça e gênero a tira colo. Por isso, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que uma mulher negra pra ministrar uma oficina de php para meninas da periferia.

E aí, vamos imaginar um cenário onde as mulheres conseguem ter acesso a educação e à tecnologia, optando por entrar no mercado de TI na área que é considerada mais pesada: a de desenvolvimento. O que acontece? É tudo de boas?

Uma pesquisa recente da Universidade da California, revelou que ser uma “woman of color” – aqui uma expressão que é usada para mulheres negras, latinas e de outras etnias nos Estados Unidos – nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática é um duplo perigo. Por exemplo, foi reportado que, para as mulheres negras eram mais provável (77%) do que outras mulheres (66%) ter que provar pra si mesmo que é capaz sempre.

As mulheres latinas relataram que quando eles se afirmam reagindo, correm o risco de serem vistas com um comportamento com “raiva” ou “muito emocional”. Já as mulheres negras sentem que tem mais margem para expressar emoção, desde que elas não sejam percebidas como “mulheres negras raivosas”. Pois é. Se imagine tendo que lidar com isso todos os dias da sua vida, adicionando a isso esteriótipos como “mulheres não ruins em exatas”, “nem vou explicar porque ela não vai entender” e mais um zilhão de violências e preconceitos ridículos. Mas ainda há esperanças!

Projetos como o Black Girls Can Code que incentiva meninas de até 17 anos a não só desenvolverem software, mas construir robôs e fazer simulações com arduino e coisas do gênero, são um exemplo. Iniciativas como essa nos dão inspiração para que algo seja feito do lado de cá do hemisfério. Essa semana, em São Paulo está acontecendo a Semana da Mulher na Tecnologia, um projeto mais que importante, que debaterá questões como o passado, o presente e o futuro das Mulheres na Tecnologia, além de trazer um hackday com meninas e um encontro de gerações.

Incentivar as meninas é um pequeno grande passo. Dar suporte as mulheres, amigas ou conhecidas que aspiram coisas diferentes é um passo gigantesco. Só assim conseguiremos estar além da posse de ferramentas de tecnologia: estaremos de fato mudando nosso entorno, participando ativamente da produção e difusão da informação. Como afirmou Diana Maffia no e-book Internet em código feminino:

“(…) superar semelhante barreira exigiria não só ser usuárias da tecnologia, como também, participar equitativamente no desenvolvimento de software, bem como na política de distribuição de redes digitais, empresas e engenharias que correspondem a sua produção.”

Referências:

Número de celulares supera número de habitantes

Woman of color in STEM

Internet em código feminino

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